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A transição energética deixou de ser pauta ambiental e passou a ocupar o centro das decisões econômicas, regulatórias e geopolíticas do século XXI.
A transição energética deixou de ser um discurso ambiental e passou a ocupar o centro das decisões econômicas e geopolíticas do século XXI. O que está em curso não é apenas uma mudança tecnológica, mas uma reconfiguração estrutural do sistema energético global. Nesse novo contexto, investir em energias renováveis deixou de ser uma opção ideológica ou de marketing corporativo para se tornar uma escolha estratégica, orientada por fundamentos econômicos, regulatórios e de segurança nacional.
A lógica econômica superou o discurso ambiental
Durante décadas, as fontes renováveis foram tratadas como alternativas promissoras, porém dependentes de subsídios e políticas públicas de incentivo. Esse paradigma foi superado. O avanço tecnológico, a escala industrial e a maturidade dos mercados transformaram a energia solar e a energia eólica nas fontes mais competitivas para expansão da geração elétrica em diversas partes do mundo.
O custo de implantação caiu de forma consistente, enquanto a eficiência dos equipamentos aumentou. Hoje, em muitos mercados, é mais barato construir uma nova usina renovável do que manter em operação uma termelétrica antiga movida a combustíveis fósseis.
O risco estrutural das termelétricas
Esse movimento não ocorre por idealismo, mas por racionalidade econômica. As termelétricas estão estruturalmente expostas à volatilidade dos preços internacionais de combustíveis, às crises geopolíticas e às oscilações cambiais.
Conflitos, sanções, rupturas de cadeias de suprimento e disputas comerciais impactam diretamente o custo da energia gerada a partir de gás, carvão ou óleo combustível. As renováveis, por outro lado, operam com custos marginais próximos de zero após o investimento inicial e não dependem de insumos importados. Isso significa maior previsibilidade tarifária, menor exposição a choques externos e maior autonomia energética.
O capital global já mudou de direção
A pressão regulatória também se tornou um fator decisivo. Metas de neutralidade de carbono, precificação de emissões, restrições ao crédito para projetos fósseis e mecanismos de ajuste de carbono nas fronteiras comerciais já são realidade.
Fundos soberanos, fundos de pensão e grandes gestoras internacionais têm direcionado volumes crescentes de recursos para projetos de energia limpa. Não se trata apenas de atender a critérios ESG, mas de buscar ativos com fluxo de caixa previsível, baixo risco operacional e contratos de longo prazo.
A energia renovável passou a ser vista como infraestrutura essencial, com perfil defensivo e retorno estável.
Energia
Irini Tsouroutsoglou
Advogada e Superintendente do Instituto de Petróleo, Gás e Energia (IPEGEM), braço técnico da Frente Parlamentar de Petróleo, Gás e Energia (FREPPGEN). Atua na formulação de propostas regulatórias e na interlocução estratégica do setor energético brasileiro.
A posição estratégica do Brasil
O Brasil ocupa uma posição singular nesse processo. O país possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e reúne condições naturais excepcionais para a expansão das renováveis.
O regime de ventos no Nordeste está entre os melhores do planeta, a irradiação solar é elevada em praticamente todo o território e a escala territorial permite projetos de grande porte. A competitividade das renováveis no Brasil não é apenas ambiental, é estrutural.
Além disso, o país pode se consolidar como fornecedor de hidrogênio de baixo carbono, biocombustíveis avançados, biogás, biometano e combustíveis sustentáveis para aviação. Poucos países combinam base agroindustrial, recursos naturais abundantes e uma matriz elétrica limpa.
Liderança não é automática
Vantagem comparativa não se converte automaticamente em liderança. Sem planejamento estratégico, segurança regulatória e visão de longo prazo, o país corre o risco de assistir à transição energética global como exportador de commodities primárias, enquanto outras nações capturam o valor agregado das novas cadeias tecnológicas.
A transição energética não é apenas pauta ambiental. É disputa por competitividade, inovação e relevância geopolítica.
Investir em energias renováveis é, portanto, uma decisão sobre o modelo de desenvolvimento que o país pretende adotar. Ignorar esse movimento significa abrir mão de competitividade, segurança energética e protagonismo internacional.
No fim das contas, a pergunta não é se o mundo se tornará mais renovável. A questão é se o Brasil pretende liderar essa transformação ou apenas assistir enquanto outros países transformam recursos em riqueza, inovação e poder.
Advogada e Superintendente do Instituto de Petróleo, Gás e Energia (IPEGEM), braço técnico da Frente Parlamentar de Petróleo, Gás e Energia (FREPPGEN). Atua na formulação de propostas regulatórias e na interlocução estratégica do setor energético brasileiro.

Energia Renovável: por que o capital já fez sua escolha por Irini Tsouroutsoglou