Sexta-feira, céu meio nublado sobre Botafogo. Eu e Graça Oliveira Santos fomos conhecer o recém-inaugurado restaurante São Miguel. Reserva feita pelo WhatsApp na véspera. Na mensagem, um aviso quase paulistano: tolerância máxima de dez minutos de atraso. Marcamos às 13h. Corremos. Mas, Botafogo tem um trânsito próprio, uma mistura de pressa carioca com resignação.
Chegamos on time. Havia valet na porta. O restaurante ocupa um casarão charmoso. A entrada conduz a duas casas diferentes, quase como dois humores da mesma personalidade. Uma pequena área de espera com bancos faz a transição.
À esquerda, um espaço delicioso: grande balcão de madeira, bancos altos, decoração simples, mas muito bem resolvida. Confortável, embora ainda sem aquele aconchego que só o tempo e o vinho derramado sobre a madeira conseguem criar. Informal. Jovem. Sem afetação.
O atendimento no bar foi rápido e eficiente. Pedi um Bloody Mary. Graça foi de Fitzgerald. O meu veio com um inesperado toque defumado. No primeiro gole estranhei. No segundo comecei a entender a brincadeira. O Fitzgerald dela estava excelente. Fresco, elegante, equilibrado. Para acompanhar, uma linguiça servida como petisco — muito gostosa, dessas que fazem o almoço começar antes da mesa.

Passamos então para nossa mesa na outra casa. Vale destacar o paisagismo. Muito bonito. Tropical sem cair na caricatura. O salão é amplo, iluminado por um grande teto de vidro e um pé-direito generoso que dá respiro ao ambiente. O tipo de arquitetura que deixa o almoço mais leve mesmo quando o Rio resolve ferver.

Um pequeno rodízio de garçons orbitava nossa mesa. Serviço atento, jovem, treinado para aquele equilíbrio difícil entre informalidade e eficiência. O cardápio traz os pratos do dia. Na sexta, a estrela era uma dobradinha com feijão branco. A cozinha aposta forte na lenha: carnes, legumes, peixes, fumaça e brasa em evidência.
Cabernet Sauvignon para Graça. Água com gás para mim. O vinho chileno — “gostoso”, decretou ela, encerrando qualquer pretensão de sommelierismo na mesa.

Ficou decidido assim: dobradinha para mim e risoto de moqueca para ela. Antes dos pratos principais chegaram dois pratos menores, o que permitiu compartilhar pequenas porções e transformar o almoço numa degustação civilizada.
A dobradinha me devolveu imediatamente à infância. Leve. Delicada. Como explicou o próprio dono da casa, Marcelo Torres, “aqui usamos só a colmeia”. A frase soou quase sofisticada para um prato historicamente bruto. Os feijões estavam no ponto exato. Talvez um pouco mais de tempero a levasse ao lugar memorável.
O risoto de moqueca vinha acompanhado de um filé de peixe grelhado — um vermelho, soubemos depois. Peixe muito bem executado. O risoto, porém, chegou mais líquido do que deveria e alguns minutos extras de cocção fariam diferença.
No final fomos conhecer o outro salão. Menor, no mesmo espírito do primeiro. Para sobremesa, um arroz-doce com acompanhamentos cumpriu dignamente sua missão. Um prato para dividir. Doce sem exagero. Conversa longa. Papo fluido como dever ser entre amigos.
Pedimos a conta. Preço ok. Substancial, mas compatível com a ambição do lugar.
E então veio o detalhe que talvez melhor resuma o espírito da casa. Na sala que antecede os banheiros, uma foto do pop star David Bowie parece se mover através de um truque ótico. Bárbaro. E quando você entra no toalete começa a tocar. Cool. Muito cool. Quantas lembranças. Banheiro, Bowie e China Girl
Na saída, carro na porta, valet eficiente e aquela sensação típica dos restaurantes cariocas recém-inaugurados que entendem seu tempo: experiência, atmosfera e narrativa.
Vai fazer sucesso.
Se voltaremos? O tempo dirá.