O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) reconheceu oficialmente que não existe no Brasil uma cadeia produtiva estruturada de jumentos destinados ao abate para exportação de peles à China. A informação consta em documento encaminhado ao deputado federal Bruno Ganem (PODEMOS-SP), após questionamentos apresentados ao órgão em outubro de 2025.
Segundo a Secretaria de Defesa Agropecuária, diferentemente das cadeias produtivas de bovinos, aves e suínos, não há no país um sistema organizado de criação, recria, engorda e abate desses animais. O documento afirma que o que ocorre é o recolhimento de animais criados de forma dispersa em diversas regiões.
O próprio Ministério também admite que os jumentos destinados ao abate são, predominantemente, animais descartados ou abandonados após o fim de sua vida produtiva.
Outro ponto que chama a atenção é a fragilidade na rastreabilidade. Conforme o MAPA, as Guias de Trânsito Animal (GTAs) muitas vezes indicam apenas locais temporários onde os animais são reunidos antes do transporte aos abatedouros, sem refletir necessariamente sua origem real.
Pesquisadores e entidades de proteção animal afirmam que a atividade possui características extrativistas e alertam para o impacto sobre a população de jumentos no Brasil. Dados reunindo informações do MAPA, IBGE e Agrostat apontam que o país perdeu 94% de sua população de jumentos entre 1996 e 2025.
Grande parte das peles é destinada ao mercado chinês para a fabricação do ejiao, produto elaborado a partir do colágeno extraído da pele dos animais e comercializado como um revigorante físico.
Para especialistas, o reconhecimento oficial da inexistência de uma cadeia produtiva estruturada reforça os argumentos em favor da proibição definitiva do abate de jumentos no país.

Toque do Barão
Durante séculos o jumento foi um dos maiores companheiros do homem no sertão brasileiro. Carregou água, alimentos, mercadorias e ajudou a construir a economia de regiões inteiras quando tratores e caminhões eram apenas um sonho distante.
Agora, ao admitir que não existe uma cadeia produtiva organizada para o abate desses animais, o próprio governo lança luz sobre uma questão que vai muito além da economia. Trata-se de discutir qual valor uma sociedade atribui aos seres que ajudaram a construir sua história.
Se os números estiverem corretos e 94% dos jumentos brasileiros desapareceram em menos de três décadas, talvez estejamos diante de algo mais grave do que um debate comercial. Talvez estejamos assistindo ao desaparecimento silencioso de um símbolo da cultura e da formação do interior do Brasil.
