Rejuntes Afetivos: O que resiste ao tempo? É a partir dessa indagação que Isabel Becker introduz uma nova perspectiva para um elemento tão presente na estética cultural brasileira: o azulejo.

Objeto de origem islâmica com forte influência árabe, atravessou continentes ao longo da história, sendo difundido na Europa, especialmente em Portugal, até ser incorporado à cultura brasileira, consolidando a sua presença na arquitetura local ao longo dos anos. São curiosas as relações que atravessam determinados elementos. Inicialmente símbolo da presença colonial portuguesa no país, o azulejo caiu no gosto popular como peça decorativa, por refrescar ambientes, pela facilidade de limpeza e devido a sua durabilidade.
Posteriormente, foi incorporado nas fachadas de construções modernistas para suavizar volumes brutos de edificações, tornando-se assim um elo entre tradição e modernidade. É justo Brasília, ícone da arquitetura modernista e cidade onde se encontram os primeiros painéis de azulejos de Athos Bulcão, o local escolhido pela artista para apresentar diferentes posições fotográficas, tendo como base painéis de azulejos que trazem à tona memórias afetivas em camadas de poesia.
Fotógrafa com trinta e seis anos de trajetória artística, Becker especializou-se na produção de retratos intimistas, marca de suas duas primeiras décadas de atuação, antes de enveredar pela foto-arte, na qual luz, sombra, arquitetura, realidade e poesia se entrelaçam. Os ensaios personalizados deram lugar a composições estéticas capturadas pelo olhar preciso de quem apreende o sensível através do visível, nos pequenos detalhes.

Essa investigação começou com a observação de cenas cotidianas frequentemente despercebidas e se desdobrou na série “Private Nest”, na qual a intimidade ganha forma por meio do enquadramento inusitado de objetos agigantados, deslocados de sua função original. Num segundo momento, a arquitetura passou a ocupar o centro da pesquisa: na série “Luz na Sombra”, fragmentos de brises e cobogós, elementos que trazem na sua função aspectos de privacidade, transformaram-se em padronagem para composições com efeitos de Op-Art. Ao dar continuidade a pesquisa, um elemento presente tanto em espaços íntimos quanto em áreas externas – o azulejo – assumiu o protagonismo.

Em registros singulares, ele conecta as dimensões do público e do privado, unindo questões exploradas nas séries anteriores. Ao pesquisar banheiros das décadas de 1950 a 1970, a artista se deparou não apenas com um acervo arquitetônico de época, mas também com as suas primeiras memórias afetivas: lembranças das casas da mãe, da tia e da avó, onde passava as férias na infância. Signos sensíveis atravessaram esses espaços, conectando diferentes temporalidades – passado e presente em diálogo. Observando ângulos e estudando enquadramentos, antigas histórias afloraram, evocando imagens como saboneteiras guardadas em recordações preciosas, referências de um cotidiano íntimo e afetuoso.

Quem nunca cantou, chorou, sonhou ou se perdeu em pensamentos sob o chuveiro, envolto em névoa de vapor d’água? A força dessas lembranças imprimiu uma nova camada à indagação inicial: o que resiste ao tempo? Estruturas sólidas, memórias afetivas, tudo aquilo que compõe os pilares de sustentação física e emocional. Assim nasceu a série “Rejuntes afetivos”, aqui apresentada.
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