A cada quatro anos, o mundo parece parar diante de uma bola. Para Ricardo Veras, essas pausas periódicas formam uma espécie de calendário afetivo. Em Todas as Copas – Memórias de um Torcedor, o escritor e torcedor da Portuguesa percorre a história dos Mundiais desde 1930, misturando fatos históricos, curiosidades e recordações pessoais. O resultado é um convite para que cada leitor revisite não apenas as Copas do Mundo, mas também os capítulos da própria vida.

“A Copa do Mundo marca a vida das pessoas de quatro em quatro anos”
O que o motivou a escrever Todas as Copas – Memórias de um Torcedor?
A Copa do Mundo marca a vida das pessoas de quatro em quatro anos. Assim, existem memórias esportivas e de vivência desde a primeira Copa de que me recordo, a de 1974. Embora o livro narre todas as edições, desde a primeira, em 1930, ele também é um registro de como o futebol acompanha a trajetória das pessoas ao longo da vida.
Qual foi a primeira Copa que realmente marcou sua vida como torcedor?
A de 1974. Eu estava empolgado com a chegada da televisão em cores. Era uma criança acostumada a ver desenhos em preto e branco. Mas foi a partir de 1978 que comecei a guardar detalhes mais precisos, como o gol absurdamente anulado de Zico contra a Suécia. O árbitro alegou ter encerrado a partida enquanto a bola ainda viajava pelo ar para a área.
Ao revisitar todas as Copas, qual delas mais mexeu com suas emoções?
A de 1994, por ter sido a primeira vez que vi o Brasil campeão do mundo. Mas a eliminação para a Itália, em 1982, permanece como uma das maiores tristezas da minha vida de torcedor.

Qual foi a melhor seleção brasileira que você viu jogar?
A de 1982. Sem dúvida.
O que a Copa de 2026 acrescentou à narrativa do livro?
Na verdade, o livro foi lançado antes do início da Copa de 2026. Ela será incorporada à edição que pretendo lançar em 2030. A obra atual se encerra com as eliminatórias em todos os continentes e com os grandes temas que cercavam aquele momento histórico, como a missão Artemis II, o avanço da inteligência artificial e as turbulências internacionais.
O que mudou e o que permanece igual no futebol ao longo das décadas?
Permanece a emoção e o envolvimento frenético dos torcedores. O que mudou foi que o futebol se tornou muito mais estudado. Os atletas viraram verdadeiras máquinas de desempenho, e isso contribuiu para um equilíbrio maior entre as seleções. Basta observar os resultados surpreendentes que já surgiram nesta Copa.
O que torna a Copa do Mundo um evento tão especial?
É o maior evento esportivo do planeta. Gera mais fanatismo do que os Jogos Olímpicos. Durante noventa minutos, cada partida se transforma em uma verdadeira guerra sem armas.
Há alguma curiosidade histórica que o tenha surpreendido?
O livro é baseado principalmente em minhas próprias memórias. Fiz pesquisas para conferir datas e nomes, mas as lembranças são pessoais. Entre as curiosidades, acho interessante o fato de a Holanda ter levado irmãos gêmeos para as Copas de 1978 e 1998. Também me impressiona a Hungria ter sido pioneira na adoção do aquecimento antes dos jogos, na Copa de 1954, algo que hoje é rotina em qualquer modalidade esportiva.
Como nasceu sua paixão pela Portuguesa?
Fui levado recém-nascido ao Canindé. O torcedor da Portuguesa vive também a cultura de uma colônia. Apaixona-se não apenas pelo futebol, mas pela vida social do clube. É semelhante ao vínculo que muitos frequentadores têm com a Hebraica, em São Paulo: a identificação vai além do esporte.
O torcedor da Portuguesa vê o futebol de forma diferente?
O torcedor da Portuguesa quer títulos, claro. Mas, assim como o torcedor do América do Rio, costuma enxergar o futebol menos pelos números e mais pelas histórias. Da mesma forma que um croata contará por gerações que sua seleção eliminou o Brasil na Copa de 2022.
O Brasil continua sendo o país do futebol?
Essa definição precisa ser revista. As novas gerações têm inúmeras opções de entretenimento. Jogos eletrônicos, esportes radicais e outras atividades tiraram do futebol aquela posição praticamente única que ocupava no passado.
Qual foi sua maior alegria e sua maior tristeza em Copas do Mundo?
A maior alegria foi o título de 1994. A maior tristeza, a eliminação diante da Itália em 1982.
Quais jogadores mais o encantaram ao longo da vida?
Não necessariamente nessa ordem: Cristiano Ronaldo, Maradona, Messi, Romário e Ronaldo.

Se pudesse voltar no tempo para assistir a uma partida de Copa, qual escolheria?
Brasil e Holanda, na semifinal de 1998, e também a final de 2022 entre França e Argentina.
O que espera que o leitor leve consigo ao fechar a última página do livro?
Espero que ele se surpreenda com as curiosidades fora de campo e que faça seu próprio livro mental. Ao ler minhas memórias, certamente se lembrará da própria vida: onde morava, com quem assistia aos jogos, se ainda era solteiro, entre tantas outras recordações.
O que define um verdadeiro torcedor?
É aquele que, mais do que torcer por um time, consegue admirar o talento de qualquer atleta, nascido em qualquer lugar do mundo, mesmo quando ele está do outro lado do campo.
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