Artista visual e pesquisador brasileiro, Henrique Detomi é indicado ao Prêmio PIPA e finalista do PIPA Online 2026, utiliza a caminhada como ferramenta de investigação para criar obras que dialogam com memória, território e meio ambiente.
A relação entre arte e território ganha novos significados na produção do artista visual e pesquisador Henrique Detomi, que faz da caminhada um instrumento de investigação estética e política. Natural de Belo Horizonte e radicado em São Paulo, o artista percorre áreas impactadas pela mineração, barragens e monoculturas para desenvolver obras que dialogam com pintura, desenho, instalação, fotografia, vídeo e ações coletivas.
Doutor em Poéticas Visuais pelo Instituto de Artes da Unicamp e mestre pela Universidade de São Paulo (USP), Detomi construiu uma trajetória marcada pela observação direta das transformações da paisagem e das formas de vida que resistem em territórios profundamente alterados pela ação humana.
O reconhecimento de sua pesquisa se reflete na indicação ao Prêmio PIPA e na presença entre os finalistas do PIPA Online 2026, uma das mais importantes premiações dedicadas à arte contemporânea brasileira.
Caminhar como prática artística
Mais do que registrar paisagens, Henrique Detomi utiliza a experiência da caminhada para compreender os impactos sociais, ambientais e afetivos provocados pela exploração da terra.
Cada território visitado conduz a um processo criativo diferente, fazendo com que os materiais e as linguagens artísticas sejam definidos pela própria experiência vivida no local. O resultado são obras que revelam não apenas as marcas da degradação ambiental, mas também as permanências, memórias e formas de coexistência que sobrevivem nesses espaços.
A matéria da paisagem
Em séries como Extravio ou do Ouro ao Pó, o artista incorpora materiais oriundos da própria atividade extrativista — cimento, pedra, ferro, madeira e ouro — para discutir as transformações impostas às montanhas e aos territórios minerados.
Já em Imerso até os Olhos, Escuto o Silêncio da Terra, sua pesquisa nasce da experiência de explorar grutas desde a infância. As pinturas apresentam camadas espessas de tinta que aproximam a superfície pictórica da textura geológica da rocha, convidando o observador a experimentar a obra quase de forma tátil.
A série Vertigem, realizada com carvão sobre papel e bastão de óleo sobre tecido de algodão, aborda a sensação de colapso ambiental contemporâneo e traduz visualmente a chamada ecoansiedade — o sofrimento psicológico provocado pelas mudanças ambientais e climáticas.

Arte construída no território
Entre seus trabalhos mais recentes está Desterro aos Resíduos (2025), desenvolvido a partir de caminhadas nas áreas impactadas pela construção da barragem do Rio Jaguari, em São Paulo.
Durante o percurso, o artista recolheu resíduos, objetos abandonados e vestígios das antigas ocupações para construir uma intervenção coletiva utilizando terra e materiais encontrados no próprio local. A obra permanece viva através do registro fotográfico, que acompanha suas transformações ao longo do tempo.
Outro destaque é Como se el piso recordará de quien sos antes que vos (2025), vídeo produzido em colaboração com uma comunidade rural da Argentina durante residência artística, reforçando o interesse do artista pelos processos colaborativos e pela escuta dos territórios.

Trajetória internacional
Além da sólida formação acadêmica, Henrique Detomi participou de importantes residências artísticas no Brasil e no exterior, entre elas a Comunitária – Residencia de Arte Contemporáneo y Procesos Sociales, na Argentina (2025), Red Bull Station (2017), Rizoma (2019), ArtFarm Project (2019) e Casulo (2021).
Sua produção já foi apresentada em exposições individuais como Em Pé na Beira do Abismo (Galeria Periscópio, 2022), SAGOMA (Casa Fiat de Cultura, 2021) e Estado Transitório (BDMG Cultural, 2018), além de integrar mostras coletivas em instituições como Memorial da América Latina, Galeria Baró, Espaço das Artes da USP, Casa Fiat de Cultura e Palácio Boa Vista.
Ao transformar a caminhada em gesto artístico, Henrique Detomi propõe uma reflexão sensível sobre os impactos da exploração ambiental, revelando que as paisagens não são apenas cenários, mas organismos vivos onde memória, natureza e sociedade permanecem em constante transformação.

