Laís Gouthier, uma das últimas grandes damas da sociedade brasileira, morre aos 100 anos no Rio de Janeiro
Filha de Bernardo Sayão e mulher do embaixador Hugo Gouthier, Laís atravessou o século XX entre os grandes acontecimentos da história brasileira, os salões da diplomacia internacional e amizades com personagens lendários de seu tempo.
O Rio de Janeiro se despede de uma de suas grandes damas. Aos 100 anos, faleceu a embaixatriz Laís Gouthier, personagem de uma geração em que elegância, cultura, política e diplomacia se encontravam nos salões das grandes capitais do mundo. Dona de um charme natural e de uma vida extraordinária, Laís testemunhou acontecimentos históricos e conviveu com algumas das personalidades mais fascinantes do século XX.
Sua história familiar já carregava um capítulo importante da construção do Brasil moderno. Laís era filha de Bernardo Sayão, engenheiro, político e um dos grandes pioneiros da construção de Brasília. Homem de confiança do presidente Juscelino Kubitschek, Sayão foi responsável pela abertura da rodovia Belém-Brasília, uma das obras mais emblemáticas da integração nacional. Morreu tragicamente em janeiro de 1959, atingido por uma árvore durante os trabalhos da estrada, deixando seu nome definitivamente associado à história do país.
O casamento com o embaixador Hugo Gouthier levou Laís a uma trajetória internacional marcada por encontros memoráveis. Diplomata de grande prestígio, Hugo representou o Brasil em importantes missões no exterior e cultivou relações com chefes de Estado, artistas, intelectuais e membros da aristocracia europeia. Laís acompanhou o marido nessa vida cosmopolita, tornando-se uma anfitriã admirada pela elegância, inteligência e naturalidade com que transitava entre diferentes mundos.
O universo de relações do casal reunia nomes que parecem saídos das páginas de uma revista de história do século XX. Grace Kelly, Farah Diba, Aristóteles Onassis, Stavros Niarchos, Pablo Picasso e integrantes da família Kennedy fizeram parte dos círculos sociais e diplomáticos frequentados pelos Gouthier. Eram tempos em que recepções, jantares e encontros privados reuniam personagens que influenciavam os rumos da política, das artes e da sociedade internacional.
Uma das amizades mais especiais de Laís foi com Wallis Simpson, a duquesa de Windsor, mulher por quem o rei Eduardo VIII abdicou do trono britânico. O casal Gouthier conheceu os duques de Windsor em Veneza, em 1954, por intermédio da lendária anfitriã Elsa Maxwell. Os encontros continuaram em Paris, Bruxelas, Nova York e Roma. Laís admirava particularmente a elegância da duquesa, com quem desenvolveu uma relação de proximidade, registrada nas memórias de Hugo Gouthier.
Foi justamente em Roma que o casal participou de um dos capítulos mais interessantes da diplomacia brasileira. Durante o governo Juscelino Kubitschek, Hugo Gouthier conduziu a aquisição do Palazzo Pamphilj, magnífico palácio barroco do século XVII localizado na Piazza Navona. O imóvel, que já abrigava a representação diplomática brasileira, foi adquirido pelo governo em 1960 e permanece até hoje como sede da Embaixada do Brasil na Itália.
A negociação garantiu ao Brasil um dos endereços diplomáticos mais extraordinários da Europa. Nos salões históricos do palácio, Laís recebeu convidados internacionais e participou de encontros que aproximavam a cultura brasileira da sociedade europeia. O designer Sergio Rodrigues foi convidado a criar peças para os interiores da embaixada, entre elas uma mesa que recebeu o nome de Gouthier.
Em Bruxelas, durante a Exposição Universal de 1958, o casal também esteve envolvido em importantes acontecimentos culturais, incluindo uma apresentação musical regida por Heitor Villa-Lobos, numa época em que a música, as artes e a arquitetura ajudavam a projetar internacionalmente a imagem de um Brasil moderno.
De volta ao Rio de Janeiro, Laís continuou cultivando amizades e participando da vida social da cidade. Discreta, elegante e dona de uma memória privilegiada, atravessou gerações preservando o prazer dos encontros e das boas conversas. Sua presença era uma ligação viva com personagens e acontecimentos que hoje pertencem aos livros de história.
Em outubro de 2023, Laís participou do lançamento do livro Bernardo Sayão — Caminhos, Afetos, Cidades, de seu sobrinho Sérgio de Sá, na Livraria Argumento, no Leblon. Na ocasião, esteve ao lado de familiares e amigos para celebrar a memória do pai, em um encontro registrado pelo ZERONALDO.
Com a partida de Laís Gouthier, o Rio perde uma de suas figuras mais emblemáticas e uma testemunha privilegiada de um período fascinante da história brasileira. Da construção de Brasília aos palácios de Roma, dos encontros com a aristocracia europeia às amizades cultivadas durante décadas na sociedade carioca, sua vida reuniu histórias que atravessaram fronteiras e gerações.
Laís Gouthier deixa a lembrança de uma mulher que fez da elegância uma maneira de viver, da amizade uma arte e da diplomacia um universo de encontros inesquecíveis.
