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No último sábado 15/08 aconteceu a abertura da exposição Poex, exposição inédita de Ascanio MMM na Silvia Cintra+Box 4. O escultor português radicado no Rio amplia sua pesquisa com alumínio, formas irregulares e novas possibilidades cromáticas e permanece em cartaz até 26 de setembro.

O que acontece quando uma trama geométrica deixa de obedecer à regularidade e passa a incorporar o acaso, o vazio e a diferença?

É justamente nesse território que Ascânio MMM mergulha em Poex, sua nova exposição na Galeria Silvia Cintra+Box 4, no Rio de Janeiro. A mostra reúne uma produção inédita realizada entre 2024 e 2026 e apresenta um novo momento na pesquisa do artista, conhecido por transformar perfis de alumínio em estruturas escultóricas que desafiam os limites entre espaço, desenho e arquitetura.

A principal novidade está justamente na ruptura com a geometria regular que marcou parte importante de sua produção recente. Os quadrados e retângulos dão lugar a perímetros irregulares, enquanto a trama de alumínio passa a incorporar interrupções, falhas e vazios.

Para o crítico Felipe Scovino, autor do texto de apresentação da exposição, Poex não abandona o sistema de grade que caracteriza a investigação de Ascânio, mas o atravessa por uma nova lógica. O que antes parecia uma estrutura contínua passa a admitir a ausência como parte constitutiva da obra. E o vazio, nesse caso, não significa falta. Ele ganha presença.

Um escultor que pensa como pintor

A nova série também amplia a presença da cor no trabalho de Ascânio. Os perfis de alumínio, tradicionalmente associados à construção estrutural das peças, passam a assumir uma função geométrica e pictórica ainda mais evidente.

O artista utiliza pintura eletrostática nos perfis, aplicada a alta temperatura, mas encontrou uma maneira de ampliar a paleta disponível. Sobre o branco eletrostático, passou a utilizar tinta spray, criando novas possibilidades cromáticas.

AscânioMMM

 

“Assim como o pintor, testo todas as cores possíveis”, conta Ascânio. A observação ajuda a compreender uma das características mais interessantes de Poex: embora trabalhe essencialmente com escultura, Ascânio desenvolve uma investigação que também pertence ao universo da pintura.

“Ascânio é um escultor que pensa como pintor”, afirma Scovino. A afirmação faz sentido diante das novas obras. As tramas metálicas deixam de ser apenas estruturas e passam a funcionar como superfícies construídas por cor, ritmo, textura e gesto. São obras tridimensionais que carregam consigo uma evidente preocupação pictórica.

Cada peça nasce também de uma relação direta com o fazer. As dimensões e configurações não obedecem a um modelo único. Surgem da experiência cotidiana do ateliê, do contato do artista com os materiais e dos estudos realizados em cadernos de papel quadriculado. É nesse encontro entre planejamento e experiência que as formas encontram sua configuração definitiva.

Entrar dentro da obra

Se os trabalhos de parede exploram a irregularidade, a cor e a interrupção da trama, a grande escultura de chão propõe outra experiência.

Sem os segmentos coloridos presentes em outras obras da exposição, a peça é construída por módulos semicirculares que se encaixam e alcança quase quatro metros de altura. Na parte superior, espelhos suspensos a aproximadamente três e três metros e meio do chão ampliam a percepção do espaço e criam uma dimensão quase enigmática.

O visitante pode entrar na escultura. A experiência deixa de ser apenas contemplativa. O corpo passa a fazer parte da obra, atravessando sua estrutura e encontrando nos espelhos uma percepção fragmentada e ampliada do próprio espaço.

Ascânio propõe, para essa experiência, duas palavras que parecem resumir bem a atmosfera da peça: infinitude e mistério. É também uma síntese possível de Poex: uma exposição em que aquilo que está construído importa tanto quanto aquilo que foi deixado em aberto.

A poética da razão

O título da exposição é uma abreviação de “poética experimental”, expressão utilizada pelo crítico e curador Paulo Herkenhoff para definir a pesquisa de Ascânio MMM no livro Ascânio MMM: poética da razão.

A escolha não é casual. Ao longo de sua trajetória, o artista desenvolveu uma investigação marcada pela precisão construtiva, pelo rigor geométrico e pela relação entre arte e arquitetura. Mas, em Poex, esse rigor parece encontrar uma nova liberdade.

A grade continua presente. O alumínio continua sendo o elemento fundamental. A construção manual permanece como procedimento. O que muda é a possibilidade de romper o sistema. E é justamente nessa ruptura que a obra encontra sua nova poética.

Ascânio MMM

Nascido em Fão, Portugal, em 1941, Ascânio Maria Martins Monteiro mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro com a família em 1959 e naturalizou-se brasileiro em 1970. Formado em Arquitetura pela UFRJ, estudou também na Escola Nacional de Belas Artes.

Sua trajetória inclui participações nas Bienais Internacionais de São Paulo de 1969 e 1979, na Bienal do Mercosul de 1997 e importantes exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior.

Suas obras integram acervos de instituições como MASP, MAM Rio, MAM-SP, Museu Nacional de Belas Artes, Museu de Arte do Rio e Pinacoteca de São Paulo.

O artista também possui esculturas de grandes dimensões instaladas em espaços públicos e edifícios no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Teresina, Lisboa e Tóquio.

Serviço

Poex — Ascânio MMM

Poex | Individual de Ascânio MMM

Galeria Silvia Cintra+Box 4

silviacintra.com.br

Rua das Acácias 104 – Gávea, RJ

Fotos Cristina Lacerda

Jaime Acioli e Amanda Mujica

 

Barrão, Ascânio MMM e Eduardo Coimbra

 

Ascânio MMM e Fernando Leite

 

Eduardo Coimbra, Felipe Scovino, Barrão, AscânioMMM, Paulo Venâncio, Arthur Barrio

 

Juliana e Silvia Cintra

 

Juliana Cintra e Tiago Freire

 

Ascânio MMM
Ana Holck e Amalia Giacomini