• Post author:

Catalunha mira o turista brasileiro e movimenta 500 milhões de euros com visitantes do Brasil

Com gasto médio de 2.111 euros por viajante, brasileiros ganham protagonismo na nova estratégia turística catalã. Modelo europeu de valorização do território também inspira reflexões sobre o futuro de destinos como o sul da Bahia.

O brasileiro está se tornando um visitante cada vez mais valioso para a Catalunha. Em 2025, 211.300 turistas procedentes do Brasil movimentaram 500 milhões de euros na região espanhola, um crescimento de 43% em relação ao ano anterior. Mais impressionante é o avanço do gasto médio individual, que aumentou 46%, alcançando 2.111 euros por visitante.

Os números revelam uma transformação importante no comportamento do viajante brasileiro e ajudam a explicar por que o Brasil passou a ocupar uma posição estratégica nos planos turísticos da Catalunha.

Para uma região que tem Barcelona como sua principal vitrine internacional, a questão já não é simplesmente receber mais visitantes. O desafio é atrair turistas interessados em experiências culturais, gastronomia, vinhos, natureza e destinos menos explorados, capazes de movimentar diferentes setores da economia.

O movimento faz parte do plano “Catalunya, millor turisme” (Catalunha, melhor turismo), que estabelece uma nova orientação para o setor até 2030. Apresentada pela Agência Catalã de Turismo durante uma missão comercial em São Paulo, a estratégia procura substituir a obsessão pelo número de visitantes por uma visão mais ampla de desenvolvimento econômico e social.

O brasileiro vale mais para a Catalunha

A evolução do mercado brasileiro merece atenção especial. O crescimento de 43% nos gastos totais, acompanhado de um aumento de 46% no gasto médio individual, indica que a expansão da receita não depende apenas da chegada de mais turistas.

O Brasil representa, portanto, uma oportunidade de ampliar o valor econômico de cada viagem, especialmente quando o visitante é estimulado a permanecer mais tempo, conhecer diferentes regiões e consumir produtos e serviços locais.

Como referência, o gasto médio dos turistas estrangeiros na Catalunha em 2025 foi de aproximadamente 1.238 euros por pessoa, segundo o instituto estatístico catalão, Idescat. O valor de 2.111 euros divulgado para o mercado brasileiro é cerca de 70% superior a essa média geral, embora os indicadores devam ser comparados com cautela por suas diferentes bases estatísticas.

A conectividade aérea reforça esse potencial. Os voos diretos da LATAM Airlines entre São Paulo e Barcelona chegam a sete frequências semanais em determinados períodos do ano, abrindo possibilidades para viagens que ultrapassem os limites da capital catalã.

Barcelona é apenas o começo

Com aproximadamente 8 milhões de habitantes, a Catalunha reúne 580 quilômetros de litoral mediterrâneo, cidades históricas, montanhas, estações de esqui e algumas das regiões vinícolas mais interessantes da Espanha.

A Costa Brava, a Costa Dourada e os Pirineus oferecem experiências completamente diferentes daquelas tradicionalmente associadas a Barcelona. No Penedès, a menos de uma hora da capital, vinhedos e produtores de cava recebem visitantes interessados no universo do vinho. O Priorat reúne vinícolas de prestígio internacional, enquanto o Empordà combina praias, gastronomia e o legado artístico de Salvador Dalí.

A estratégia pretende distribuir melhor esse fluxo turístico, reduzindo a concentração em Barcelona e incentivando viagens durante diferentes períodos do ano.

Outro aspecto importante é a utilização dos recursos provenientes da taxa turística. Parte da arrecadação pode ser destinada a melhorias de interesse coletivo, incluindo equipamentos culturais, climatização de escolas e transporte público.

O princípio é fazer com que a riqueza produzida pelo turismo também melhore a qualidade de vida dos moradores.

E se olhássemos para o sul da Bahia com os mesmos olhos?

A experiência catalã provoca uma reflexão interessante sobre o turismo brasileiro, especialmente em regiões que reúnem extraordinária riqueza natural, cultural e gastronômica, como o sul da Bahia.

Guardadas as diferenças históricas, econômicas e de infraestrutura, existem pontos de aproximação entre os dois territórios.

A Catalunha tem o Mediterrâneo; o sul da Bahia, o Atlântico cercado pela Mata Atlântica. A região espanhola valoriza seus vinhedos; a Bahia possui uma tradição cacaueira que pode transformar fazendas, produção de chocolate e gastronomia em experiências sofisticadas de turismo rural. Se a Catalunha apresenta o universo de Salvador Dalí, o sul baiano oferece a memória literária de Jorge Amado, a cultura afro-brasileira e a herança dos povos indígena. Em ambos os casos, a riqueza turística está muito além das praias.

Os números brasileiros mostram a dimensão desse potencial. Porto Seguro, um dos principais destinos do sul baiano, recebeu aproximadamente 2,47 milhões de turistas em 2024, crescimento de cerca de 13% em relação a 2023, segundo dados divulgados pela prefeitura.

O volume é expressivo. Mas a experiência catalã sugere uma pergunta ainda mais relevante: quanto dessa movimentação econômica permanece nas comunidades locais e como ela poderia ser distribuída por outros municípios?

Itacaré, Ilhéus, Canavieiras, Trancoso, Arraial d’Ajuda e Santa Cruz Cabrália possuem características próprias que permitem desenvolver circuitos complementares de turismo cultural, gastronômico, ecológico e de experiências.

O objetivo não seria simplesmente reproduzir o modelo europeu, mas aproveitar uma ideia central: o sucesso turístico não deve ser medido apenas pela quantidade de visitantes, e sim pela riqueza que a atividade produz e distribui.

Catalunha
Cadaques / Divulgação / ACT

 

O sul da Bahia já possui iniciativas de valorização territorial. Em 2025, por exemplo, a Secretaria de Turismo da Bahia promoveu ações de qualificação e planejamento em oito municípios da Costa do Descobrimento. A oportunidade está em aprofundar a integração regional, fortalecer os pequenos produtores e ampliar a participação das comunidades nos benefícios econômicos do setor.

O turismo do futuro precisa beneficiar quem recebe

A diretora global da Agência Catalã de Turismo, Arantxa Calvera Cosculluela, resume a proposta:

“O Brasil é um dos mercados prioritários da Catalunha na América do Sul. Buscamos um visitante que entenda as regras do destino e queira fazer parte de um turismo que também beneficia quem mora aqui, vivenciando experiências únicas por todo o nosso território.”

A declaração revela uma mudança de perspectiva que pode influenciar destinos muito além das fronteiras espanholas.

Para o turista brasileiro, a Catalunha quer oferecer uma viagem mais rica em experiências. Para os moradores, pretende construir uma atividade econômica capaz de gerar benefícios duradouros.

E, para o Brasil, especialmente para regiões como o sul da Bahia, fica uma reflexão: talvez o próximo grande salto do turismo não esteja em receber milhões de visitantes adicionais, mas em descobrir como fazer cada viagem gerar mais valor para quem chega e, principalmente, para quem fica.

Catalunha – Girona/ Divulgação / ACT