“O espaço e o lugar” — a nova exposição da DAN Galeria Interior — abre no próximo sábado como um convite sensorial e intelectual. Sob a curadoria de Fábio Magalhães e com expografia assinada pelo Fernando Poles Arquitetos, a mostra reúne 75 obras que tensionam os limites entre o físico e o vivido.
Mais do que ocupar um espaço, a exposição investiga o instante em que ele se torna lugar — quando atravessado pelo corpo, pela experiência e pela memória. É nesse território subjetivo que a arte se instala: onde paredes deixam de ser apenas paredes e passam a guardar vestígios, afetos e narrativas silenciosas.
Uma exposição que não se percorre apenas com os olhos, mas com tudo aquilo que já fomos.

A cadeira, recorrente em diferentes trabalhos, conduz essa investigação com precisão quase silenciosa. Objeto banal à primeira vista, ela se impõe como medida do humano — ponto de repouso, marca de intimidade, vestígio de presença. Mas é também passagem: um limiar que se abre para uma dimensão mais ampla, onde tempo e espaço se entrelaçam.
A partir desse eixo, Fábio Magalhães constrói aproximações sutis entre artistas de trajetórias distintas, como Adolfo Estrada, Almir Mavignier, Dionísio Del Santo, Ferreira Gullar, Gonçalo Ivo, José Roberto Aguilar, José Spaniol, Sergio Fingerman e Valentino Fialdini.
O percurso articula pinturas, objetos, obras geométricas e abstrações como quem costura camadas de percepção. Tudo converge para uma questão essencial — dessas que não se esgotam: como uma experiência íntima, quase doméstica, pode conter em si uma ideia de mundo?
No fim, talvez seja isso que a mostra nos devolve: a percepção de que o universal começa no gesto mínimo.
O núcleo que envolve Ferreira Gullar introduz essa questão de forma direta, quase inaugural. Em Poemas Espaciais, conjunto de nove peças em pintura sobre madeira, a obra se constrói na tensão entre estrutura e leitura ao longo do tempo. Não se trata apenas de ver, mas de acompanhar — como quem percorre um pensamento em movimento.
Cada peça propõe uma situação específica, articulando superfície, gesto e percepção em camadas que se revelam progressivamente. O espaço, aqui, deixa de ser estático: ele se desdobra em duração, ganha ritmo, exige presença.
É nesse campo expandido que a cadeira adquire densidade. Já não é apenas objeto ou símbolo, mas um ponto de ancoragem — onde o olhar repousa para, em seguida, avançar. Um dispositivo silencioso que organiza a experiência e projeta, a partir do íntimo, uma abertura para o infinito.

Na obra de José Roberto Aguilar, a cadeira de Van Gogh aparece deslocada dentro da pintura. A referência passa pelas duas telas realizadas em 1888: sua própria cadeira, com o cachimbo, e a cadeira de Gauguin, com livros e um castiçal aceso, analisadas por Georges Bataille no ensaio “A mutilação sacrificial e a orelha cortada de Van Gogh”.
Nessas duas imagens, o pintor estabelece uma diferença entre modos de presença: uma ligada ao cotidiano, outra à espera e a uma dimensão mais simbólica. Ao serem retomadas por Aguilar, essas imagens entram em outro regime. A cadeira permanece como ponto de ancoragem, enquanto o espaço pictórico se expande ao redor, aproximando o objeto de uma escala cósmica.
De acordo com o curador, essa passagem entre o íntimo e o ilimitado acompanha uma ideia antiga: o desejo humano de alcançar o que excede a própria condição. Na Epopeia de Gilgamesh, essa busca pela permanência atravessa a experiência do tempo. Aqui, ela se vincula ao espaço — ao modo como o corpo se situa e projeta sentido.
Espaço, tempo e lugar se articulam. “Uma coisa está dentro da outra”, observa Fábio Magalhães. A partir daí, as obras se articulam em torno dessa continuidade. O maior conjunto da exposição é de Dionísio Del Santo, com cerca de 30 obras, em diálogo com trabalhos de Almir Mavignier, nos quais a imagem se organiza como uma constelação, em que repetição e variação produzem uma expansão contínua do campo visual. Em Gonçalo Ivo, a cor sustenta a pintura. Sergio Fingerman trabalha com uma imagem em instabilidade constante.

José Spaniol desloca a cadeira para o campo simbólico, alterando sua percepção como objeto cotidiano e inserindo-a em uma dimensão de movimento. Adolfo Estrada e Valentino Fialdini aproximam a geometria de uma condição aberta, sem fechamento definitivo. A continuidade entre interior e exterior atravessa esse conjunto.
A expografia, assinada pelo Fernando Poles Arquitetos, entra nesse mesmo campo. O escritório foi convidado a desenvolver uma leitura arquitetônica que participa da definição do conjunto. Um túnel atravessa o espaço da galeria e conecta dois momentos da mostra. A travessia altera a percepção, estabelece um ritmo e reorganiza a relação entre corpo e obra. A arquitetura reforça a passagem entre escalas que sustenta a exposição.
SERVIÇO – DAN Galeria Interior
O espaço e o lugar
Artistas: Adolfo Estrada, Almir Mavignier, Dionísio Del Santo, Ferreira Gullar, Gonçalo Ivo, José Roberto Aguilar, José Spaniol, Sergio Fingerman, Valentino Fialdini
Curadoria: Fábio Magalhães
Expografia: Fernando Poles Arquitetos.
Abertura: 9 de maio de 2026, sábado, das 10h30 às 15h
Período expositivo: até 10 de outubro de 2026
Visitação: segunda a sexta, das 10h às 18h; sábados, das 10h às 13h
Local: DAN Galeria Interior
Endereço: Av. Ireno da Silva Venâncio, 199, Galpão 20 – Protestantes, Votorantim, SP
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Fundada em 1972, em São Paulo, por Gláucia e Peter Cohn, a DAN Galeria consolidou ao longo de cinco décadas uma atuação contínua na articulação entre arte moderna e contemporânea. Seu programa se desenvolve a partir de um eixo claro: a investigação das linguagens construtivas, com atenção particular às heranças do concretismo e do neoconcretismo, e seus desdobramentos nas práticas atuais.
Em Votorantim, a DAN Interior, conduzida por Cristina Dalanhesi, integra essa atuação como sede voltada a exposições, acervo e circulação artística. O espaço acolhe obras de grandes dimensões, ativa parte do acervo da galeria e amplia o contato entre artistas, colecionadores, instituições e público fora do eixo das capitais.
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