Com curadoria de Camilla Rocha Campos, exposição reúne artistas contemporâneos em diálogo com a coleção e os espaços da Casa Museu Eva Klabin
Participam Andréa Hygino, Antonio Obá, Daniela Seixas, Juliana dos Santos, Lia Rodrigues, Marcus Deusdedit, Rosângela Rennó e Suzanne Jackson

Uma casa que se transforma em museu. Objetos criados para determinadas funções que, séculos depois, passam a integrar uma coleção. Elementos arquitetônicos retirados de seus lugares de origem e incorporados a outros espaços. Obras cuja matéria, aparência e significado se modificam com o tempo. É a partir desses movimentos que a Casa Museu Eva Klabin apresenta, em 12 de setembro de 2026, Hipertelia – Marés de Mudanças, exposição com curadoria de Camilla Rocha Campos que coloca trabalhos de Andréa Hygino, Antonio Obá, Daniela Seixas, Juliana dos Santos, Lia Rodrigues, Marcus Deusdedit, Rosângela Rennó e Suzanne Jackson em diálogo com obras e objetos da coleção reunida por Eva Klabin (1903–1991).
Com cerca de 50 trabalhos e ocupando o primeiro andar da casa, a exposição parte da ideia de que objetos, obras e espaços podem ultrapassar as finalidades para as quais foram concebidos e adquirir outras funções e sentidos. A montagem torna esse processo visível: peças da coleção serão deslocadas de suas posições habituais, elementos da arquitetura ganharão novas configurações e ambientes da casa serão reorganizados a partir da presença dos trabalhos contemporâneos.
O conceito de hipertelia chegou à pesquisa curatorial a partir de A natureza do espaço, livro do geógrafo Milton Santos. O termo descreve um processo em que algo se torna tão especializado em determinada função que, diante de uma mudança de contexto, já não consegue operar da mesma maneira. Para continuar existindo, precisa se transformar, assumir outra função ou estabelecer novas relações. A ideia encontra correspondência na própria trajetória da Casa Museu Eva Klabin e de sua coleção.
“A hipertelia nos interessa porque fala de coisas que, diante de uma mudança de contexto, passam a exercer outra função, outra possibilidade de existência. Isso acontece o tempo todo aqui na Casa Museu, onde a pesquisa sobre o acervo continua modificando a maneira como entendemos determinadas peças. A coleção não é algo fixo, ela permanece aberta a novas relações”, afirma Camilla Rocha Campos, diretora artística da instituição.

A montagem leva esse princípio à própria arquitetura. Logo na entrada, antigas colunas que perderam sua função estrutural são apresentadas como objetos de contemplação. Duas janelas hoje ocultadas serão novamente abertas. Elementos da parede de um antigo monastério francês, trazidos por Eva Klabin e transformados em portas na residência, serão retirados de seus lugares habituais e apresentados em uma nova configuração. A casa revela, assim, sucessivas mudanças de uso e significado.
Os artistas convidados trabalham, por caminhos distintos, com transformações da matéria, do corpo, da imagem e da função dos objetos. Em Suzanne Jackson, essas fronteiras aparecem em trabalhos cuja natureza não se oferece de imediato: pintura, escultura e objeto se aproximam. Entre as obras apresentadas estão New Demi Lune (2007), construída com acrílica, madeira, rede, corda, tela e anéis metálicos, e Pássaro (2026), realizada em acrílica sobre bambu.
Juliana dos Santos participa com dois trabalhos sem título, de 2025 e 2026, realizados com aquarela, aquarela vegetal e flor de Clitoria ternatea sobre tela de algodão. A artista investiga as transformações do pigmento extraído da flor e articula cor, matéria e questões raciais. A alteração física da matéria integra o próprio processo do trabalho.
De Antonio Obá, a exposição apresenta a pintura Meada (2021) e o vídeo Encantado (2024). Os dois trabalhos aproximam dimensões de uma produção que transita entre pintura e performance. No vídeo, corpo, máscara e vegetação passam por diferentes estados; na pintura, a dimensão performativa que marca a trajetória do artista ganha outra forma.
A relação entre objeto, função e corpo aparece também em Marcus Deusdedit, que apresenta MP-97 (2024). O trabalho parte de um móvel associado ao design brasileiro e desloca sua condição funcional, aproximando a presença dos corpos da própria história do objeto.
Lia Rodrigues realiza um trabalho concebido especialmente para a exposição. Em um dos ambientes, uma estrutura construída com tecidos brancos pela coreógrafa e sua companhia receberá projeções e estabelecerá relação direta com uma representação de Santa Teresa d’Ávila pertencente à coleção Eva Klabin. A exposição apresenta ainda registros em vídeo de trabalhos de Lia Rodrigues, entre eles Encantado, Borda e Fúria.
A ideia de transformação da própria Casa se projeta também para além da exposição em Souvenir para Eva, trabalho coletivo de Rosângela Rennó, Daniela Seixas e Andréa Hygino que dá início ao processo de criação da nova entrada da Casa Museu Eva Klabin, prevista para ser inaugurada em 2027. O projeto começa com uma pesquisa das artistas no entorno da instituição, reunindo objetos e histórias de pessoas que vivem ou circulam pela região e colocando-os em relação com a casa, sua coleção e a figura de Eva Klabin.

O trabalho acompanha uma mudança concreta na relação da instituição com seu entorno: atualmente voltada para a Avenida Epitácio Pessoa, a entrada de público será transferida para a lateral da casa, de frente para a Praça Benedito Cerqueira, adotada pela Casa Museu, onde a instituição já instalou novos bancos. Souvenir para Eva será integrado a esse novo acesso, marcando um movimento de aproximação com a cidade e o cotidiano da vizinhança.
Ao colocar esses trabalhos em contato com a coleção, Hipertelia altera também a forma de percorrer o espaço físico. Objetos deixam temporariamente seus lugares, ambientes mudam de configuração e obras produzidas em tempos distintos estabelecem relações que antes não existiam. A imagem da maré presente no título acompanha esse movimento de aproximação e afastamento, permanência e mudança, e deixa uma pergunta: o que a casa, as obras e tudo mais ainda podem vir a ser quando passam a participar de outras relações?
Sobre a Casa Museu Eva Klabin
A Casa Museu Eva Klabin surge, em 1991, como um espaço de referência para a vida cultural carioca, ocupando o imóvel em que Eva residiu e onde ergueu um museu para abrigar e exibir ao mundo as peças que colecionou em sua vida, fruto de suas pesquisas, investigações e viagens. Atualmente, há no acervo 2.963 obras que abrangem períodos e civilizações da história humana com ampla diversidade de origens.
São peças vindas da Grécia, da China, dos Andes, do Egito e da Europa que abrangem desde a antiguidade clássica até o século XIX. Aberta a visitas gratuitas cinco dias por semana, sempre no período da tarde, a Casa Museu Eva Klabin apresenta ao público semanalmente atrações desenvolvidas pelo Núcleo de Educação e pela curadoria artística. Ao longo do ano, aqui ocorrem exposições de arte contemporânea em diálogo com o acervo permanente, oficinas de práticas artísticas e palestras. Assim, mantém vivo o acervo reunido por sua fundadora, em perspectiva com as discussões contemporâneas, na ação conjunta de seus setores.
SERVIÇO:
Hipertelia – Marés de Mudanças
Curadoria: Camilla Rocha Campos
Abertura pública: 12 de setembro de 2026
Encerramento: 13 de dezembro de 2026
Casa Museu Eva Klabin
Praça Benedito Cerqueira, nº 0
Lagoa – Rio de Janeiro
Horários de visitação: de quarta-feira a domingo, das 14h às 18h
Entrada gratuita | classificação livre
Site: https://www.evaklabin.org.br/pt | Instagram: @casamuseuevaklabin