Na noite de ontem, 23 de maio, o Centro do Rio voltou a provar que ainda é o território mais imprevisível — e talvez mais vivo — da cena cultural carioca. Foi na Casa Proeza, na Rua do Ouvidor, que aconteceu a abertura da exposição KAIRÓS – Instância Transcendente, reunindo cerca de 25 obras dos fotógrafos Ángel Castellanos, Felipe Metsavaht, Guilherme “Bill” e Marina Zabenzi.
Com curadoria da estudante de filosofia da UFRJ Francesca Pomposelli, a mostra investiga o olhar e a produção de uma geração jovem, mas já marcada por repertório visual e circulação profissional consistentes.
Nas paredes descascadas da galeria — espaço de eventos comandado por Maria Eduarda Ballesteros — o trabalho pulsante do venezuelano Ángel Castellanos encontrava um contraponto quase glacial na estética precisa e silenciosa de Felipe Metsavaht. Um diálogo de atmosferas que parecia amplificar ainda mais a força crua do espaço.
Mas talvez o mais interessante da noite estivesse justamente fora das paredes. O entorno parecia fazer parte da própria instalação: bares derramando pagode ao vivo pelas calçadas, a presença silenciosa e barroca da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, copos circulando com drinques da Destilaria Maravilha e uma fauna urbana deliciosamente heterogênea.
Havia convidados saídos de um imaginário Harry Stiles, outros com alma de bossa nova, além daqueles que transformam qualquer vernissage em passarela involuntária de estilos, referências e excessos sutis. Tudo junto, misturado e funcionando — como o próprio Centro quando resolve pulsar sem pedir autorização.
KAIRÓS nasce exatamente desse encontro entre tempo, cidade e presença. E talvez por isso a exposição faça tanto sentido naquele endereço: porque algumas noites não acontecem apenas dentro da arte. Elas transbordam para a rua.
Fotos Renato Wrobel












