Luciana Rique apresenta Entre Órbitas na Casa Proeza
Com curadoria de Eder Chiodetto, exposição reúne cerca de 35 obras e aproxima fotografia, ferro, ouro, carvão e papéis artesanais coreanos
Luciana Rique fotografa o mundo para fazê-lo desaparecer. Diante de sua câmera, aquilo que está à vista perde contorno, escala e gravidade. Luzes se transformam em corpos, superfícies sugerem paisagens e formas parecem flutuar em um espaço impossível de localizar.
“Nada é o que parece quando a Luciana fotografa”, observa o curador Eder Chiodetto, que acompanha a pesquisa da artista desde 2022. Para ele, enquanto a fotografia tradicionalmente procura revelar o mundo, Luciana faz o movimento contrário: “A Luciana fotografa para ocultar a aparência do mundo”.
É desse território entre o visível e o invisível que nasce Entre Órbitas, terceira exposição individual da artista, em cartaz na Casa Proeza, no Centro do Rio, durante a ArtRio. A mostra reúne cerca de 35 obras e amplia uma pesquisa que parte da fotografia, mas incorpora novos materiais e possibilidades.
Fotografias convivem com chapas de ferro, ouro, carvão e papéis artesanais coreanos. Em alguns trabalhos, torna-se difícil perceber onde termina a fotografia e começa a matéria.
“Uso a câmera como um pincel”, conta Luciana. “Não quero fotografar a coisa dada, quero que tenha algum mistério.”
A nova exposição também aproxima a pesquisa da artista da alquimia. A ideia surgiu a partir de uma fotografia em tons avermelhados que chamou a atenção de Chiodetto. A imagem sugeria um mar revolto, embora não fosse um mar. O vermelho levou os dois ao conceito de rubedo, etapa da alquimia relacionada à culminância da transformação.
“Os movimentos estelares, a alquimia, a transformação da matéria e o comportamento da luz sobre esses fenômenos foram alguns dos mistérios que nortearam os diálogos de Luciana comigo”, explica o curador.
A própria matéria das obras participa desse processo. Ao experimentar impressões sobre ferro e aço corten, Luciana passou a incorporar a oxidação e a transformação do metal ao trabalho. “Uma chapa de ferro não foi uma chapa de ferro e não será daqui a um tempo”, observa Chiodetto.
Papéis artesanais coreanos, descobertos pela artista durante uma viagem investigativa a Seul, em 2025, também entram nas composições.
Na Casa Proeza, parte das obras será suspensa do teto, sem tocar o chão. Fotografias e materiais serão distribuídos em diferentes planos, criando uma espécie de constelação. A ideia é fazer com que o visitante não apenas observe as obras, mas percorra o espaço entre elas.
Por trás desse universo cósmico existe ainda uma dimensão interior. Luciana associa sua pesquisa à ideia de um espaço intermediário, entre o céu e a terra.
“Entre Órbitas nasce da sensação de habitar um entrelugar. Construo esse espaço intermediário através da fotografia, um universo onde presença e ausência, sonho e realidade, matéria e espírito coexistem.”
Talvez por isso, o cosmos de Luciana não esteja necessariamente distante. Pode estar numa fresta, numa sombra, numa superfície oxidada ou em um reflexo transformado pela câmera.
“O cosmos deixa de ser uma paisagem distante para tornar-se um espelho interior”, resume a artista.
Serviço
Entre Órbitas — Luciana Rique
Curadoria: Eder Chiodetto
Em cartaz até: 12 de dezembro de 2026
Local: Casa Proeza
Rua do Ouvidor, 26 – Centro, Rio de Janeiro
Visitação: terça a sexta, das 11h às 18h; sábados, das 11h às 15h
Entrada gratuita | Classificação livre\
Fotos Renato Wrobel









