Com curadoria de Eder Chiodetto, exposição concebida como uma constelação reúne cerca de 35 obras que articulam fotografia, ferro, ouro, carvão e papéis artesanais coreanos

Luciana Rique fotografa o mundo para fazê-lo desaparecer. Diante de sua câmera, aquilo que está à vista perde contorno, escala e gravidade. Luzes se tornam corpos, superfícies sugerem paisagens, formas parecem flutuar em um espaço cuja localização não podemos precisar. “Nada é o que parece quando a Luciana fotografa”, diz o curador Eder Chiodetto.
Se a fotografia nasceu historicamente associada à capacidade de registrar o visível, a artista carioca parece interessada no movimento inverso: “Em geral, os fotógrafos atuam para revelar algo do mundo. A Luciana fotografa para ocultar a aparência do mundo”, observa.
É desse território incerto, entre o que existe e o que apenas parece existir, que nasce Entre Órbitas, terceira exposição individual de Luciana Rique, que será inaugurada no dia 17 de setembro de 2026, às 19h, na Casa Proeza, no Centro do Rio, durante a ArtRio.
Com curadoria de Eder Chiodetto, que acompanha a pesquisa da artista desde 2022, a mostra reunirá cerca de 35 obras e marca um novo momento de uma investigação que tem a fotografia como ponto de partida, mas progressivamente ultrapassa seus limites.
Se nas exposições anteriores, Entreato (2023) e Sólido Volátil (Rio de Janeiro, 2024; São Paulo, 2025), Luciana já tensionava a imagem fotográfica ao colocá-la em relação com diferentes suportes e materiais, agora esse movimento se radicaliza. Fotografias passam a conviver com chapas de ferro, folhas de ouro, carvão e papéis artesanais coreanos. Em determinados conjuntos, torna-se difícil distinguir onde termina a fotografia e começam o desenho, a superfície ou a matéria em estado bruto.
As imagens partem de situações encontradas no mundo, mas raramente permitem reconhecer aquilo que esteve diante da câmera. Luciana procura cantos, frestas, incidências de luz e sombra, e trabalha com o desfoque e o movimento do próprio aparelho. “Uso a câmera como um pincel”, afirma. “Não quero fotografar a coisa dada, quero que tenha algum mistério.” Eder define o resultado como uma “iconografia de atmosferas”, situada numa zona intermediária entre figuração e abstração.
Em Entre Órbitas, a alquimia passa a constituir uma nova chave conceitual para a pesquisa. O caminho surgiu quando Chiodetto se deparou com uma fotografia em tons avermelhados que lhe pareceu mostrar um mar revolto, embora não fosse um mar.
A imagem, que abrirá a exposição, trazia uma intensidade cromática até então pouco presente em uma produção marcada principalmente por pretos, brancos e ocres. A partir dela, artista e curador chegaram ao rubedo, etapa da alquimia associada à culminância do processo de transmutação.
“Os movimentos estelares, a alquimia, a transformação da matéria e o comportamento da luz sobre esses fenômenos foram alguns dos mistérios que nortearam os diálogos de Luciana comigo e determinaram novos impulsos criativos”, afirma Eder.
A pesquisa repercute também na construção visual das obras: as arestas, linhas retas, triângulos e quadrados mais presentes em Sólido Volátil cedem espaço a formas circulares e elípticas, enquanto vermelhos e dourados passam a integrar a paleta da artista.
A alquimia se infiltra na própria matéria das obras. Ao experimentar impressões sobre ferro e aço corten, Luciana se interessou pelo comportamento do metal, sobretudo por sua oxidação ao longo do tempo. O ferro passou a existir ao lado da fotografia, sem servi-la como suporte.
“Uma chapa de ferro não foi uma chapa de ferro e não será daqui a um tempo”, pontua o curador, que vê no material uma metáfora da transitoriedade. Ferro, carvão e uma espécie de “poeira cósmica”, como Luciana chama algumas das matérias que experimenta, integram um percurso que culmina na folha de ouro, associada à etapa final do processo alquímico.
A nova produção incorpora ainda papéis artesanais coreanos, descobertos pela artista durante uma experiência de caráter investigativo em Seul, em 2025, quando visitou ateliês, espaços de produção e museus. Suas formas e texturas estabelecem um diálogo visual com as fotografias e passam a integrar as composições da mostra.
A ideia de suspensão ganha também uma dimensão espacial. Na Casa Proeza, parte das obras descerá do teto em suportes que não chegam ao chão. Distribuídas em diferentes planos, as peças criarão aproximações e distâncias como corpos em um mesmo campo gravitacional. Nas paredes, fotografias e matérias formarão constelações, propondo um percurso no qual o visitante deixa de observar as obras para orbitar entre elas.
A concepção encontra ressonância no próprio edifício histórico e em sua localização no Centro do Rio. Para Chiodetto, há algo de simbólico em construir uma exposição em torno de órbitas justamente em uma região que volta a concentrar iniciativas culturais da cidade. “É como reposicionar as constelações da cidade, colocando de novo o centro no centro, como o epicentro”, afirma.
Por trás desse universo cosmológico existe uma dimensão interior. Luciana associa sua produção à procura por um espaço intermediário, que encontra correspondências nos conceitos de akasha — entendido pela artista como o espaço primordial que permite a existência e a interação dos demais elementos — e nakazora, o intervalo entre o céu e a terra, onde os pés não tocam o chão.
“Entre Órbitas nasce da sensação de habitar um entrelugar. Construo esse espaço intermediário através da fotografia, um universo onde presença e ausência, sonho e realidade, matéria e espírito coexistem.”
Nesse movimento, o cosmos de Entre Órbitas não está necessariamente acima de nós. Pode estar numa fresta, numa sombra, numa superfície oxidada ou em um reflexo que a câmera transforma até torná-lo irreconhecível. “O cosmos deixa de ser uma paisagem distante para tornar-se um espelho interior”, diz Luciana.
Sobre Luciana Rique
Luciana Rique (Rio de Janeiro, 1978), vive e atua entre Londres e o Rio de Janeiro. Sua pesquisa artística tem a fotografia como linguagem, por meio da qual ela investiga percepções em geral não visíveis e insondáveis. O conjunto de suas obras visam criar um universo paralelo às realidades do entorno. Inspirado num viés meditativo, suas obras tangenciam o minimalismo e a questões conceituais ligadas à herança modernista da fotografia.
Luciana formou-se na New York University e depois foi estudar fotografia na Speos, em Paris, onde trabalhou como assistente do fotógrafo Jean Pierre Dutilleux. Mais recentemente, participa de grupos de arte e fotografia no Brasil e em Londres. Faz acompanhamento artístico com o curador Eder Chiodetto.
Teve sua primeira exposição, Entreato, com curadoria de Eder Chiodetto em setembro de 2023, no Rio de Janeiro, que foi parte do circuito da Art-Rio. Participou da Residência Artística Luis Maluf em janeiro e fevereiro de 2024, e apresentou seus trabalhos na exposição coletiva da Usina Luis Maluf, e na exposição Acervo, na Galeria Luis Maluf, parte da programação da SP-Arte.
Em setembro de 2024 apresentou a exposição individual Sólido Volátil em seu ateliê no Rio de Janeiro e em março de 2025, expôs Sólido Volátil em São Paulo, no FONTE, ambas com curadoria de Eder Chiodetto.
Seu ateliê, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, possui obras disponíveis para compra e pode ser visitado com hora marcada.
SERVIÇO:
Entre Órbitas, de Luciana Rique
Curadoria: Eder Chiodetto
Abertura: quinta-feira, 17 de setembro de 2026, às 19h
Local: Casa Proeza
Endereço: Rua do Ouvidor, 26 – Centro
Rio de Janeiro | RJ
Telefone: (21) 97135-2520
Instagram: @casa_proeza
Horários de visitação:
Terça a sexta, das 11h às 18h
Sábados, das 11h às 15h
Classificação livre | Entrada gratuita
Contents
- 1 Luciana Rique fotografa o mundo para fazê-lo desaparecer. Diante de sua câmera, aquilo que está à vista perde contorno, escala e gravidade. Luzes se tornam corpos, superfícies sugerem paisagens, formas parecem flutuar em um espaço cuja localização não podemos precisar. “Nada é o que parece quando a Luciana fotografa”, diz o curador Eder Chiodetto.
- 2 Se a fotografia nasceu historicamente associada à capacidade de registrar o visível, a artista carioca parece interessada no movimento inverso: “Em geral, os fotógrafos atuam para revelar algo do mundo. A Luciana fotografa para ocultar a aparência do mundo”, observa.