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Com curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra aborda a história da colonialidade como a história de um filme de terror

Carnaval no Inferno (Fortaleza, 2016) e Darwin Marinho (Tauá, 1988), Carnaval no Inferno — 2ª Marcha Trans de Fortaleza, 2024, impressão em metacrilato, 53 x 80 cm. Imagem_ Divulgação - MAC
Carnaval no Inferno (Fortaleza, 2016) e Darwin Marinho (Tauá, 1988), Carnaval no Inferno — 2ª Marcha Trans de Fortaleza, 2024, impressão em metacrilato, 53 x 80 cm. Imagem_ Divulgação – MAC

Há exposições que nos convidam a admirar a arte. Outras nos desafiam a rever certezas. “Terror celestial”, que inaugura no próximo sábado, 18 de julho, às 14h, no Museu de Arte Contemporânea (MAC Dragão), pertence à segunda categoria.

Com curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra reúne obras de artistas LGBT+ que investigam as múltiplas relações entre o terror, a construção social do medo e as identidades dissidentes. A proposta parte de uma reflexão provocadora: a história da colonialidade também pode ser compreendida como uma grande narrativa de horror, marcada pela violência, exclusão e desumanização.

Ao longo da história, pessoas LGBT+ foram frequentemente retratadas como “monstros”, “aberrações”, “estranhas” ou “ameaças” por uma sociedade moldada pela cis-heteronormatividade. A exposição ressignifica esse imaginário, transformando aquilo que antes servia para excluir em potência criativa, linguagem artística e possibilidade de cura.

O título da mostra brinca com um duplo sentido: dialoga tanto com o gênero cinematográfico do terror quanto com o “terror do gênero”, refletindo sobre como identidades dissidentes enfrentam o medo imposto por normas sociais e políticas. A partir da arte contemporânea, os artistas transformam o horror em resistência, memória e afirmação.

Sob a perspectiva da psicanálise, o medo muitas vezes é projetado no outro como forma de aliviar angústias inconscientes. É desse mecanismo que surgem figuras monstruosas que atravessam a cultura e o cinema. “Terror celestial” convida o público a inverter esse olhar, questionando quem realmente cria os monstros e por quê.

Vale a visita não apenas pela qualidade das obras, mas pela oportunidade de experimentar uma exposição que provoca reflexão sem abrir mão da força estética. Uma programação para quem acredita que a arte continua sendo um dos espaços mais potentes para compreender o nosso tempo — e, talvez, enfrentar os nossos próprios fantasmas.

Charles Lessa (Crato, 1993), Caretas, 2026, acrílica sobre tela, 50 x 40 cm. Foto_ Divulgação
Charles Lessa (Crato, 1993), Caretas, 2026, acrílica sobre tela, 50 x 40 cm. Foto_ Divulgação

 

Paradoxalmente, corpos LGBT+ sofrem cotidianamente acompanhados pelo afeto do medo: o medo de sofrer preconceito, o medo de apanhar na rua, o medo de sair de casa, inclusive o medo de ficar em casa, pois é justamente no ambiente familiar onde ocorrem a maioria dos casos de violência. Não à toa esse medo se transforma em diversos traumas e estruturas psíquicas na vida adulta, como a baixa autoestima, a necessidade da legitimação externa, o perfeccionismo etc.. Esses corpos sem lar, sem espaço seguro, experimentam a vida como um filme de terror.

É muitas vezes na arte que as pessoas LGBT+ encontram um lugar seguro para se apropriarem daquilo que lhes oprime, transfigurando o medo em coragem, ressignificando os xingamentos em expressão cultural. Se o “monstro” é aquilo transcende o humano e cria outras maneiras de existir, encontramos essa ebulição criativa na arte dessa comunidade: transformistas, perucas, asas, unhas, drag queens, glitter, brilho, cores vibrantes, formas orgânicas, livres e exuberantes.

Nesse sentido, a exposição “Terror celestial” discute a ressignificação do terror em arte. A mostra reúne artistas LGBT+ (em sua interseccionalidade de raça, território e geração: mulheres queer, pessoas negras queer etc.) que fazem da sua arte uma reelaboração dos medos de infância e a apropriação do terror como uma categoria estética. A exposição é elaborada com três linhas curatoriais: 1) Monstros e quimeras; 2) Espiritualidade terrena; e 3) Terror das formas.

A primeira linha curatorial, “Monstros e quimeras”, apresenta obras que discutem a monstruosidade como aquilo que transcende o nosso entendimento de humano (cis-heteronormativo). Nesse sentido, são obras mais-que-humanas que abordam o cruzamento dos reinos dos animais, das plantas, dos minerais, dos encantados e das forças sobre-humanas, tais como nas obras de Davi Ângelo, Higo José, insiranomeaqui, Jonas Van, Juno B, Luciana Magno, Maurício Coutinho e Trojany, que revelam um imaginário de seres híbridos, quimeras, místicos e fabulosos.

A segunda linha curatorial, “Espiritualidade terrena”, aborda a temática da religião, tão marcante na vida de pessoas  LGBT+. Historicamente, a religião cristã propagou a ideia de céu e inferno, na qual essas pessoas foram associadas a demônios e pecadores. Se por um lado a religião foi um espaço de violência, por outro lado pessoas LGBT+ buscam outras religiões para se conectar com a sua espiritualidade, tais como Carnaval no Inferno, Darwin Marinho, Charles Lessa, Isadora Ravena, Georgia Vitrilis, Honório Félix, Nicolas Gondim, Pedra Silva e Sérgio Gurgel. Nesse sentido, são obras que discutem a espiritualidade como um local de cura, apresentando raízes com saberes de matriz africana, tradições populares, cosmovisões indígenas e outras formas de conexão com a natureza espiritual. 

Lucas Dilacerda, curador. Foto de Pedro Bessa
Lucas Dilacerda, curador. Foto de Pedro Bessa

 

Por fim, a terceira e última linha curatorial, “Terror das formas”, parte do conceito de “terrorismo de gênero”, que reflete como a produção artística de pessoas LGBT+ provoca um terrorismo nos gêneros clássicos das belas artes (retrato, paisagem, natureza-morta etc.). Terrorismo aqui é sinônimo de desobediência e, portanto, de criação de outras formas de existir. Nesse sentido, as obras de Antonio Breno, Bárbara Banida, Camila Albuquerque, Céu Vasconcelos, Gi Monteiro, Jonas Pinheiro e plantomorpho assustam a gramática normativa das artes e criam outras visualidades e expressões que resistem às categorias e classificações normativas da História da Arte.

A exposição conta com recursos de acessibilidade que favorecem a fruição de diferentes públicos durante a visita. Os recursos estão disponíveis em uma plataforma digital e podem ser acessados por meio de QR Code ou com o auxílio da equipe educativa. Entre as opções disponíveis estão textos em Libras, audiodescrição, prancha de comunicação alternativa e a possibilidade de agendamento de visitas acompanhadas por intérprete de Libras. Este projeto é apoiado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria da Cultura do Ceará, com recursos provenientes da Lei Federal N.º 14.399 de julho de 2022

Portanto, a exposição “Terror celestial” busca refletir como artistas LGBT+ reelaboram o imaginário do medo e do terror transfigurando-o em força de criação e, portanto, de cura dos traumas da infância.

 

Lista de Artistas:

Antônio Breno

Bárbara Banida

Camila Albuquerque

Carnaval no Inferno

Céu Vasconcelos

Charles Lessa

Darwin Marinho

Davi Ângelo

Georgia Vitrilis

Gi Monteiro

Higo José

Honório Félix

insiranomeaqui

Isadora Ravena

Jonas Pinheiro

Jonas Van

Juno B

Luciana Magno

Maurício Coutinho

Nicolas Gondim

Pedra Silva

plantomorpho

Sérgio Gurgel

Trojany

 

Abertura: Sábado, 18 de julho de 2026, das 14h às 19h

Endereço: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema

 

Período em cartaz:

18 de julho de 2026 a 4 de outubro de 2026

 

Horário de funcionamento:

Quarta a sábado – 9h às 19h (acesso até 18h30)

Domingo e feriados – 10h às 19h (acesso até 18h30)

 

Telefones para contato:

(85) 9 9608-9891 (Diego Gregório) – Assessor de Imprensa

(85) 9 9798-6191 (Lucas Dilacerda) – Curador

(31) 9 9443-7995 (Aretha Gallego) – Gerente do MAC-CE

 

Instagram: @lucasdilacerda, @maccedragao, @dragaodomar, @institutodragaodomar, @secultceara e @pnabceara

 

Ficha Técnica

Curadoria: Lucas Dilacerda

Curadoria Adjunta: Wes Viana

Design: Rodrigo Lopes

Produção: Hércules Lima

Desenho de Luz: Raí Santorini

Assessoria de Imprensa: Diego Gregório

Fotografia e Vídeo: Jorge Silvestre

Acessibilidade: Art! em LIBRAS

Marcenaria, Montagem e Desmontagem: OGGIN LTDA.

Apoio: Cave, Mulheres Arquivadas, MUTHA – Museu Transgênero de História e Arte

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