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Última peça escrita por Nelson Rodrigues, “A Serpente” carrega desde sua origem uma atmosfera de despedida. Escrita em 1978 e montada pela primeira vez em 1980, sob direção de Marcos Flaksman e com Fernanda Montenegro no elenco, a obra já nasceu envolta nesse universo febril tão característico do dramaturgo: amor, obsessão, culpa e destruição caminhando lado a lado.

Agora, quase cinco décadas depois, o texto retorna aos palcos cariocas na sede Cia dos Atores, na Lapa, em temporada de 20 de maio a 10 de junho, sob direção e protagonismo de Anna Helena Madruga, que propõe uma leitura feminina da obra.

Mais do que explorar a rivalidade entre irmãs — caminho frequentemente associado à peça — a montagem mergulha na relação de dependência emocional entre elas. Um amor profundo, desmedido e perigoso. Quase monstruoso em sua intensidade.

Ambientada no Rio de Janeiro de 1978, a trama acompanha duas irmãs que vivem com seus maridos no mesmo apartamento. Quando uma delas toma uma decisão extrema para evitar uma tragédia, o equilíbrio precário daquela convivência implode.

Há algo de profundamente contemporâneo em revisitar Nelson Rodrigues em 2026. Não apenas pela força brutal de sua escrita, mas porque os temas que atravessam “A Serpente” continuam assustadoramente atuais: machismo, feminicídio, homofobia e violência emocional seguem presentes nas estruturas afetivas da sociedade brasileira.

Anna Helena Madruga entende bem esse território desconfortável. Sua encenação parece interessada menos no escândalo e mais na ferida emocional dessas personagens femininas, deslocando a peça para um lugar mais íntimo, psicológico e sufocante.

“Nelson não tem medo de enfiar o dedo na ferida do público”, afirma a diretora, que também estreia aqui em sua primeira direção teatral. “Eu acredito nesse tipo de teatro. Onde algo incomoda justamente por identificação profunda.”

No palco, além de Anna, estão Carol Mattos, Deco Almeida, Lucas Garbois e Gabriel Barreto, elenco que mergulha sem medo nesse universo claustrofóbico onde amor e perversão se confundem.

A serpente

Talvez por isso “A Serpente” continue tão viva. Porque Nelson Rodrigues jamais escreveu personagens moralmente confortáveis. Seus protagonistas desejam o proibido, sabotam a própria felicidade e atravessam sem pudor as regiões mais obscuras da alma humana.

E quando o teatro consegue acessar esse lugar, ele deixa de ser apenas espetáculo. Vira espelho. Um espelho cruel, desconfortável e absolutamente necessário.

Fotos Divulgação

 

Rodrigues
A Serpente