Saí do Teatro Multiplan, ontem à noite, arrebatado. Não apenas pelo espetáculo, mas pela maneira como Jorge Farjalla olha para Ópera do Malandro e consegue fazer uma obra tão conhecida voltar a provocar, incomodar, divertir e, sobretudo, pensar. Tudo isso no Teatro Multiplan, ali no Village Mall.
A direção de Farjalla conduz o espectador por diferentes discussões sem jamais retirar o brilho da montagem. Há crítica social, política, preconceito, hipocrisia, poder, corrupção e marginalização, mas nada disso pesa sobre o espetáculo. Ao contrário: tudo parece integrado à música, à dança, ao humor e à exuberância
É um espetáculo brasileiro em todos os sentidos. Brasileiro na música, nos personagens, na malandragem, no humor e nas referências às nossas tradições populares e à umbanda. Mas é também uma montagem que recebe, sem perder sua identidade, algumas elegantes pinceladas internacionais: um pouco de Broadway na grandiosidade e no domínio do musical; um pouco das tintas do teatro alemão de antes da ascensão do nazismo, especialmente da tradição de Bertolt Brecht, cuja A Ópera dos Três Vinténs está na origem da obra de Chico.
E talvez seja justamente essa mistura que faça a montagem respirar tão bem em 2026. Farjalla não tenta reproduzir o passado. Ele conversa com ele.
Há ainda a experiência de uma noite de estreia, com direito a tapete vermelho, que combina perfeitamente com a atmosfera festiva do espetáculo. Mas é no palco que tudo acontece.
José Loreto está sensacional. Seu Max Overseas Navalha tem ginga, presença e uma energia que domina a cena. Totia Meireles é outro grande destaque, construindo uma Vitória Régia que mistura força, humor e uma deliciosa teatralidade.
E então chega Valéria Barcellos.
Sua Geni é um daqueles momentos que ultrapassam o espetáculo. Quando começa Geni e o Zepelim, a personagem deixa de ser apenas uma figura da dramaturgia de Chico e ganha uma dimensão contemporânea, política e humana extraordinária. Ao final, a plateia se levantou e a ovacionou em cena aberta. De pé. Um daqueles momentos em que o teatro vira acontecimento.
Talvez seja essa a grande qualidade desta Ópera do Malandro: ela não trata Chico Buarque como patrimônio intocável. Trata-o como matéria viva.
Quase cinquenta anos depois, a obra continua falando de nós.
E quando um espetáculo consegue fazer isso cantando, dançando, provocando e divertindo, só há uma coisa a dizer:
Imperdível.
Ópera do Malandro: Chico Buarque reencontra o Brasil no olhar de Jorge Farjalla em 2026
Fotos Edson Machado












SERVIÇO
Ópera do Malandro – Musical
Teatro Multiplan – Shopping VillageMall
Av. das Américas, 3.900 – Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Até 30 de agosto de 2026
Quintas e sextas, às 20h; sábados, às 16h e 20h; domingos, às 15h30 e 19h30.
Duração: 120 minutos, sem intervalo
Classificação: 14 anos