Depois de receber um público de 35 mil pessoas na mostra inaugural da nova sede da Pinakotheke São Paulo, em Higienópolis, “Surrealismos: arte para além da razão”, a Pinakotheke Rio de Janeiro acompanha este momento de expansão e reafirma o compromisso da instituição com a memória da arte ao celebrar, 72 anos depois, o histórico Salão Preto e Branco, o “Salão do Protesto” como ficou conhecido o III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954.

Com curadoria de Shannon Botelho, estudioso do assunto, que dedica a exposição a Glória Ferreira (1947–2022), sua coorientadora na pesquisa de mestrado, e responsável pela remontagem do Salão, na Funarte, no Rio de Janeiro, em 1985, a partir de uma extensa e profunda pesquisa, referência para a mostra na Pinakotheke Rio de Janeiro. “Revolta em Preto e Branco” reúne 61 obras, distribuídas em três salas, de 50 artistas.
Pinakotheke Rio de Janeiro
Visitação pública: 11 de setembro a 21 de novembro de 2026
Curadoria: Shannon Botelho
Entrada gratuita
A Pinakotheke Rio de Janeiro tem o prazer de convidar para a abertura ao público, no dia 11 de setembro de 2026, da exposição “Revolta em Preto e Branco”, que revisita o histórico Salão Preto e Branco, em 1954, realizado pelo Ministério da Educação, no Palácio Capanema, no Rio de Janeiro. Com curadoria de Shannon Botelho, estudioso do assunto, “Revolta em Preto e Branco” reúne 61 obras de 50 artistas, oito delas que efetivamente participaram da exposição de 1954, e “que hoje podem ser vistas novamente juntas”, destaca Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke: “Natureza-morta”, de Iberê Camargo; “Peixe”, de Tomás Santa Rosa; “Composição”, de Aldo Bonadei; “Triângulo preto”, de Danilo Di Prete; “Luares sobre a cidade negra”, de Antonio Bandeira; “Sem título”, de Ione Saldanha; “Svolvær”, de Frank Schaeffer; e “Acampamento de oleiro”, de Glauco Rodrigues.
Durante a retomada desenvolvimentista do Brasil, durante a gestão de Getúlio Vargas, eleito em 1950, os artistas enfrentaram a escassez de material de trabalho, uma vez que em grande parte era importado, e não estava contemplado em meio às prioridades de investimento em infraestrutura do governo federal.
Os artistas, dentro de um sistema mais consolidado diante do estabelecimento de museus de arte moderna, se articularam então em um movimento de protesto que culminou na decisão de participarem do III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954, só usando materiais e tintas em preto e branco. Shannon Botelho destaca que “a persistência do movimento produziu alguns resultados iniciais: em junho de 1954, pouco antes do encerramento do Salão, o Ministério da Fazenda reviu a classificação dos materiais artísticos importados, que passaram da alíquota nº 5 para a nº 2, sendo reconhecidos como bens de importação necessária, ainda que não prioritária”.
Os organizadores do III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954, foram Iberê Camargo, Bruno Giorgi, Oswaldo Goeldi e Tomás Santa Rosa. O Júri de Seleção e Premiação foi formado por Milton Dacosta e Djanira. Obras desses artistas estarão também na primeira sala de “Revolta em Preto e Branco”, além das oito obras participantes do Salão de 1954.

Na segunda sala, o público verá trabalhos de artistas também signatários do manifesto que originou o Salão de 1954, e outros, com pesquisas estéticas semelhantes. Entre esses grandes nomes, há obras de Portinari a Lygia Clark, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Fayga Ostrower.
Uma terceira sala traz a questão para o presente, com trabalhos de artistas que continuam a tratar da relação entre arte, política e meios de produção, entre eles Carlos Zílio, Amilcar de Castro, Antonio Dias, Andréa Hygino, Elizabeth Jobim, Germana Monte-Mór, Iole de Freitas, Bruno Dunley e a dupla Faixa Protesta, formada por Gustavo Speridião e Leandro Barboza.
Estarão ainda na exposição documentos, fotografias e reproduções de artigos de jornais publicados em 1954, e será lançado pela Pinakotheke Editora o livro “Revolta em Preto e Branco”, com 128 páginas, e textos de Shannon Botelho e Luiza Interlenghi, que foi assistente de Glória Ferreira na primeira revisita crítica ao Salão de 1954, realizada em 1985, pelo Instituto Nacional de Artes Plásticas da Funarte, como Sala Especial do 8º Salão Nacional de Artes Plásticas. Junto com os ensaios, o livro traz documentos de imprensa do período, guardados no Centro de Documentação e Pesquisa da Funarte, e a crônica que Eneida de Moraes publicou no “Diário de Notícias” em 18 de maio de 1954, com o pedido: “vá ver o Salão, sua presença dirá aos nossos pintores que eles não estão sós”.
Shannon Botelho dedica “Revolta em Preto e Branco” à Glória Ferreira: “Esta exposição é também uma expressão de reconhecimento e apreço por Glória Ferreira (1947–2022), cuja pesquisa dedicada ao Salão Preto e Branco foi fundamental para preservar, ampliar e inscrever sua memória na história da arte brasileira. Foi por meio de uma de suas publicações que tive meu primeiro contato com o Salão e, anos mais tarde, tive a honra de tê-la como coorientadora de minha pesquisa de mestrado, quando pudemos estabelecer muitas trocas em torno de seu trabalho e, posteriormente, da pesquisa e da remontagem do Salão.
Glória dedicou-se com rigor, generosidade e persistência a reunir documentos, testemunhos e vestígios, fazendo da pesquisa também uma forma de cuidado com a memória e de construção de um legado para a História da Arte no Brasil. É, portanto, com profundo respeito, admiração e gratidão que esta exposição reconhece sua contribuição e mantém presente, entre nós, a memória de seu trabalho”.

CONTEXTO HISTÓRICO DO SALÃO DE 1954: O PROTESTO DOS ARTISTAS
Em seu texto no livro, Shannon Botelho descreve o cenário político e artístico que motivou o Salão de 1954, que ficou posteriormente conhecido como Salão Preto e Branco. “A década de 1950 marcou um momento de inflexão para as artes visuais no Brasil. A consolidação de museus dedicados à arte moderna – MAM-RJ e MAM-SP – a criação da Bienal de São Paulo, a ampliação da crítica especializada e a redefinição das políticas culturais contribuíram para transformar profundamente o sistema artístico”.
“No âmbito das políticas oficiais”, relata o curador, “uma das mudanças mais significativas ocorreu em 1951, quando foi criado o Salão Nacional de Arte Moderna. A nova mostra surgiu da separação entre o tradicional Salão Nacional de Belas Artes e as produções modernas – incluem-se aqui as produções resultantes da Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes –, institucionalizando uma reivindicação que artistas e intelectuais vinham formulando desde as décadas anteriores. Mais do que uma simples reorganização administrativa, a criação do Salão representava o reconhecimento, por parte do Estado, da autonomia conquistada pela produção moderna, ao mesmo tempo que inaugurava um espaço inédito de disputas estéticas, institucionais e políticas”.
Entretanto, à época da realização do III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954, o Brasil vivia “a retomada de um projeto nacional-desenvolvimentista que atribuía ao Estado um papel central na condução do crescimento econômico”, implementada por Getúlio Vargas, então eleito presidente da república. “A ampliação da infraestrutura, os investimentos na indústria de base e a criação de instrumentos voltados ao financiamento e à expansão da economia nacional expressavam uma estratégia que buscava reduzir a dependência externa e acelerar o processo de industrialização brasileira”, observa o curador.
O governo passou a “adotar mecanismos cada vez mais rigorosos de controle das importações. Nesse contexto, a Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil (Cexim) assumiu papel decisivo na definição dos produtos considerados estratégicos para o desenvolvimento nacional”.
Na hierarquia dos produtos e máquinas considerados essenciais, ficaram de fora “os materiais destinados à produção artística – tintas, pigmentos, pincéis, telas, papéis especiais e vernizes, em grande parte importados”. Shannon Botelho pondera que se por um lado “esse cenário tenha favorecido o surgimento e a consolidação de fabricantes nacionais de materiais artísticos, como a Corfix, cuja produção se expandia naquele contexto, os produtos disponíveis ainda eram frequentemente considerados insuficientes para atender às exigências técnicas dos artistas”.
“Nos primeiros meses de 1954, a imprensa acompanhou de perto as reivindicações dos artistas. A escassez de tintas, pincéis, pigmentos e telas deixava de ser uma questão restrita ao cotidiano da classe artística para converter-se em um problema de interesse público, revelando que a produção artística também era atravessada pelas políticas econômicas implementadas pelo Estado”, continua o curador.
“À medida que a crise se aprofundava, tornava-se evidente que o problema deixava de ser a dificuldade enfrentada por determinados artistas e assumia uma dimensão coletiva, mobilizando pintores, gravadores, escultores, críticos e entidades representativas em torno de uma reivindicação comum: a revisão dos critérios de importação aplicados aos materiais artísticos. Da insatisfação da classe, frente às dificuldades em produzir seus trabalhos, nascia o projeto de executar um salão inteiramente em branco e preto como forma de protesto. Liderados por Iberê Camargo, Milton Dacosta e Djanira, os artistas publicaram o manifesto político do III Salão Nacional de Arte Moderna.

“Inaugurado em 15 de maio de 1954, o Salão Preto e Branco distinguiu–se das edições anteriores do Salão Nacional de Arte Moderna pela ampla repercussão que alcançou antes mesmo de sua abertura. Cerca de um mês antes do vernissage, jornais de grande circulação, como o ‘Correio da Manhã’, já anunciavam a realização do chamado ‘Salão do Protesto’ convidando artistas a participarem daquela que seria uma manifestação inédita no cenário artístico brasileiro”.
Djanira teve grande importância naquele Salão ao defender a inclusão do “Quadro-objeto”, de Lygia Clark. Em entrevista dada na abertura da exposição, Djanira disse: “O Salão Nacional de Arte Moderna é uma mostra de artistas de vanguarda, onde tem lugar a exposição de resultados de pesquisas plásticas as mais variadas. (…) Dei minha aprovação a que fossem mostradas as molduras, intituladas pela autora ‘Quadro-objeto’. Como protesto contra a falta de telas, considero um trabalho original. E como pesquisa, manifesto meus respeitos”.
Luiza Interlenghi, em seu ensaio no livro “Revolta em Preto e Branco”, afirma que o “Salão Preto e Branco, como ficou conhecido o III Salão Nacional de Arte Moderna (1954), foi possivelmente a primeira mostra oficial no Brasil em que artistas se organizaram e assumiram sua curadoria, embora essa atividade só viesse a ser definida no país na década de 1980”.A curadora e professora do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio, doutora em História e Crítica da Arte pela EBA-UFRJ assinala em seu texto que um grupo de artistas se reuniu em torno de Iberê Camargo, membro da Comissão Nacional de Belas Artes, junto ao antigo Ministério da Educação, “que teve Djanira como forte aliada, e abriu uma trilha para que tomassem a frente da organização do salão oficial naquele ano”.
“Juntaram-se a esse grupo Milton Dacosta, Anna Letycia, Géza Heller, Vera Bocayuva e outros tantos. Reunidos no Salão Nobre do Museu Nacional de Belas Artes, votaram pelo protesto contra a falta de tintas e materiais de qualidade com a própria supressão da cor. Independentemente das linguagens e convicções estéticas, uniram-se e convocaram aimprensa, de tal modo que o salão alcançou inéditos 323 participantes”.
Max Perlingeiro destaca que “revisitar exposições históricas é um trabalho que a Pinakotheke desenvolve há muitos anos e que nos dá singular prazer”. “Em 2015, realizamos no Rio de Janeiro ‘Opinião 65: 50 anos depois’, sobre a exposição que se tornou referência para a arte brasileira nos anos 1960. Em 2023, retornamos aos anos 1980 com ‘Leonilson e a Geração 80’, também no Rio de Janeiro. Em cada um desses projetos reunimos obras e documentos, com a pesquisa necessária, para que exposições decisivas pudessem ser vistas de outro tempo. Essas releituras partem do passado para reconstruir contextos e recolocar as obras diante do público. A história da arte se transforma quando podemos ver de novo aquilo que conhecíamos apenas por fotografias, textos, catálogos ou depoimentos”.
O diretor da Pinakotheke assinala que 2026 é um ano “especialmente importante” para a instituição. “Após uma grande reestruturação interna e a inauguração de uma nova sede, em São Paulo, ampliamos uma atuação de décadas dedicada à pesquisa e à difusão da arte brasileira, em exposições e livros”. A mostra inaugural da nova sede da Pinakotheke São Paulo, em Higienópolis, “Surrealismos: arte para além da razão”, teve um público de 35 mil pessoas, de maio a agosto deste ano. “Revolta em Preto e Branco”, na Pinakotheke Rio de Janeiro, “faz parte desse mesmo momento de expansão, que reafirma o compromisso da nossa instituição com a memória da arte”, celebra o diretor.
Serviço: exposição “Revolta em Preto e Branco”
Visitação pública: 11 de setembro a 21 de novembro de 2026
Curadoria: Shannon Botelho
Pinakotheke Rio de Janeiro
Rua São Clemente 300, Botafogo
22260-004 – Rio de Janeiro – RJ
Telefones: 21.2537.7566
E-mail: contato@pinakotheke.com.br
Segunda a sexta-feira, das 10h às 18h, e sábados das 10h às 16h.
Entrada gratuita
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- 1 Depois de receber um público de 35 mil pessoas na mostra inaugural da nova sede da Pinakotheke São Paulo, em Higienópolis, “Surrealismos: arte para além da razão”, a Pinakotheke Rio de Janeiro acompanha este momento de expansão e reafirma o compromisso da instituição com a memória da arte ao celebrar, 72 anos depois, o histórico Salão Preto e Branco, o “Salão do Protesto” como ficou conhecido o III Salão Nacional de Arte Moderna, em 1954.
- 2 Com curadoria de Shannon Botelho, estudioso do assunto, que dedica a exposição a Glória Ferreira (1947–2022), sua coorientadora na pesquisa de mestrado, e responsável pela remontagem do Salão, na Funarte, no Rio de Janeiro, em 1985, a partir de uma extensa e profunda pesquisa, referência para a mostra na Pinakotheke Rio de Janeiro. “Revolta em Preto e Branco” reúne 61 obras, distribuídas em três salas, de 50 artistas.