A arte brasileira voltou a ocupar o centro da cena cultural carioca com o lançamento de “É pau, é pedra…”, publicação que celebra a trajetória monumental de Sérgio Camargo, nome definitivo da escultura contemporânea e um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional. O título — uma elegante reverência ao universo poético de Tom Jobim — traduz perfeitamente a matéria-prima do escultor: madeira, pedra, luz, silêncio e disciplina formal.

O lançamento aconteceu nesta terça-feira, 19 de maio, na Livraria da Travessa Ipanema, reunindo artistas, curadores, colecionadores e personagens da cena cultural carioca. Entre os destaques da noite estava o curador Marcello Dantas, cuja atuação tem sido fundamental para ampliar o diálogo entre arte, tecnologia, memória e experiência sensorial no Brasil contemporâneo que junto com Aspásia Camargo assinan o livro.
Publicado pela Barleu Edições, com projeto gráfico assinado pela 19 Design, o livro apresenta versões bilíngues dos textos, reforçando o alcance internacional da publicação. Mas “É pau, é pedra…” vai além da ideia convencional de catálogo de exposição. O livro funciona quase como uma aula silenciosa sobre forma, volume e rigor estético — uma verdadeira “pedagogia do olhar”.

As fotografias de Diego Bresani, Joana França e Lincoln Iff, somadas a registros históricos vindos de acervos pessoais, revelam não apenas a monumentalidade das esculturas, mas também a obsessão matemática do artista pela luz e pela repetição. Sérgio Camargo fazia o branco pulsar. Transformava cilindros, cortes e relevos em arquitetura espiritual.
Há algo de profundamente elegante em sua obra: nenhuma histeria visual, nenhum excesso, nenhum ruído. Apenas precisão. Em um país frequentemente seduzido pelo improviso, Camargo construiu uma estética da ordem — sofisticada, internacional e radicalmente brasileira.
O livro também referencia o documentário Se Meu Pai Fosse de Pedra, dirigido por Maria Camargo, filha do artista, acrescentando uma camada afetiva e íntima à publicação. Um encontro entre memória, arte e herança cultural.
Mais do que revisitar um escultor, “É pau, é pedra…” reafirma uma verdade que o Brasil às vezes insiste em esquecer: nossa arte já frequentou — e continua frequentando — o primeiro andar da inteligência estética mundial.
Fotos Cristina Lacerda




