Obras históricas e novos comissionamentos produzidos especialmente para a mostra investigam o impacto de Ney Matogrosso na arte e na cultura brasileira

O Solar (antigo Solar dos Abacaxis) apresenta, entre junho e outubro de 2026, a exposição “Eu Prefiro Ser”, uma grande homenagem aos 85 anos de Ney Matogrosso. Com curadoria de Bernardo Mosqueira, Matheus Morani e Pablo León de la Barra, a mostra propõe um mergulho experimental no legado de um dos artistas mais influentes da cultura brasileira, reunindo obras históricas, fotografias, um extenso acervo audiovisual e uma série de trabalhos inéditos produzidos especialmente para a ocasião.
A mostra se debruça sobre a vida e a obra do cantor, ressaltando o impacto de seu comportamento libertário e inspirador nas lutas contra a normatividade, o autoritarismo e o desrespeito à natureza. Mais do que revisitar sua contribuição para a história da música brasileira, “Eu Prefiro Ser” busca refletir sobre a sua influência no imaginário cultural do país desde os anos 1970 e evidencia como a trajetória do artista segue inspirando artistas de diferentes gerações e linguagens.
Fotos Cristina Granato

“Ela trata da força inspiradora do trabalho do Ney e do impacto da obra dele na cultura brasileira. Não é uma exposição cronológica ou biográfica, não vamos contar linearmente a história de vida e da carreira do artista. Nos últimos anos, tivemos livros, documentários, filmes, até enredos de escola de samba que já cumpriram essa missão. O que essa mostra faz é propor uma imersão experimental nesses mais de 50 anos de criação, pensando sobretudo no impacto dele na nossa sociedade e na cultura visual brasileira.” explica Bernardo Mosqueira, diretor artístico do Solar e um dos curadores da mostra.
Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Ney construiu uma obra singular, marcada pela recusa às classificações, pela invenção constante de si mesmo e pela defesa radical da liberdade. Ao afirmar o mutante e o inclassificável como forma de existência, tornou-se uma figura fundamental para sucessivas gerações de artistas, expandindo as possibilidades de expressão do corpo, da sexualidade, da arte e da própria experiência humana.

“O Ney sempre inspirou comportamentos não hegemônicos. É uma figura que questionou as normas de gênero, de sexualidade, de comportamento, da própria musica brasileira”, ressalta Mosqueira. “No processo da exposição, foi incrível conversar com os artistas das mais diversas regiões e gerações e descobrir que cada um deles tinha uma memória fundamental e definitiva sobre como foram impactados pela obra do Ney, tendo suas vidas e trabalhos marcados pelo artista.”
“Eu Prefiro Ser” coloca em diálogo obras históricas, acervos públicos e privados e produções contemporâneas de mais de quarenta artistas brasileiros e internacionais. Os trabalhos reunidos na mostra abordam temas que atravessam a trajetória de Ney, como transformação, desejo, natureza, dissidência, coletividade e imaginação.
Participam da exposição Adir Sodré; Adriano Costa; assume vivid astro focus; Alex Červený; Antonio Manuel; Carlos Motta; Chico Tabibuia; Claudia Hersz; Darks Miranda; Érika Verzutti; Feliciano Centurión; Flávio de Carvalho; Glauco Rodrigues; Ivan Campos; Ivens Machado; Hudinilson Jr.; Humberto Espíndola; Instituto Vida Livre; João Sebastião Costa; José Leonilson; José Tarcísio Ramos; Julio Callado; Keith Haring; Laercio Redondo; Laura Lima; Luiz Fernando Borges da Fonseca; Luiz Roque; Madalena Schwartz; Manauara Clandestina; Marcos Chaves; Miriam Inez da Silva; Rafa Bqueer; Rafael França; Rafael Saar; Randolpho Lamonier; Rodolpho Parigi; Rubens Gerchman; Samuel Alves de Jesus; Sebastião Silva; SPIT! with Despina Zacharopoulos; Tadáskía; Thix; UÝRA; Vânia Toledo; Vinícius Gerheim; Victor Arruda; Yeguas del Apocalipsis; Zé Carlos Garcia.

Um dos destaques da exposição é o conjunto de obras inéditas comissionadas especialmente para o projeto. Entre elas está uma instalação inédita em larga escala desenvolvida pelo coletivo assume vivid astro focus (AVAF), apresentando Ney Matogrosso em um palimpsesto de várias fases de sua trajetória. A artista Tadáskía apresenta uma obra comissionada que faz referência a sua qualidade inclassificável, enquanto Rodolpho Parigi desenvolve um retrato inédito de Ney Matogrosso em referência à icônica capa do primeiro álbum do Secos & Molhados.
Já THIX realiza um retrato exclusivo utilizando imagens atuais do cantor para representá-lo em sintonia com seres de várias espécies, acompanhado de tamanduá-bandeira, pássaros, entre outros animais.
Também integram esse núcleo duas criações de Laura Lima: apresentada na exposição, o Ninho Comunal para se tornar habitat de pássaros no espaço expositivo; e em colaboração com Roched Seba, especialista em vida silvestre do Instituto Vida Livre, uma escultura para o sítio de soltura de Ney Matogrosso. Além de obras históricas de Humberto Espíndola, Miriam Inez da Silva, José Leonilson e Feliciano Centurión, estarão presentes obras inéditas de Vinicius Gerheim, Alex Červený, Randolpho Lamonier e Zé Carlos Garcia, produzidas especialmente para a exposição.
A realização da mostra também concretiza um desejo antigo do Solar. Em 2017, a instituição desenvolveu um amplo projeto expositivo dedicado ao artista, que previa a apresentação de centenas de horas de material audiovisual raro, novas encomendas artísticas, uma publicação de pesquisa e um programa educativo experimental.
“Essa é uma exposição que eu desejo fazer desde 2015 e que o Solar desenvolve desde 2017, com a contribuição de diversas curadoras que fizeram parte da nossa história. Inicialmente queríamos realizá-la no marco dos 80 anos, mas foi no meio da pandemia. Tem mais de seis anos que decidimos que essa exposição seria feita no marco dos 85 anos”, lembra Bernardo Mosqueira.

Como parte do eixo curatorial dedicado à investigação da liberdade, desenvolvido pelo Solar entre 2025 e 2026, a exposição convida o público a uma imersão no maravilhamento, na beleza da estranheza, no queerness, na atitude punk e glam e na potência transformadora que atravessam a obra de Ney Matogrosso.
“Essa vai ser uma exposição bem vibrante. A trajetória criativa do Ney é uma poderosa lição sobre liberdade, metamorfose, a força da estranheza e a necessidade de defender formas não normativas de existir e se expressar. Nesse nosso presente desafiador, que nos pede coragem para sonhar e viver coletivamente, a exposição vai convidar o público a expandir os horizontes do que podemos ser, vai afirmar a potência da arte como exercício de liberdade e convocando-nos a uma nova virada contracultural”, ressalta Mosqueira.
SERVIÇO
Ney Matogrosso: Eu Prefiro Ser
Período: 20 de junho a 17 de outubro de 2026
Visitação: quarta a sábado, das 10h às 18h
Local: Solar – Mercado Central (Rua do Senado, 48 – Centro – Rio de Janeiro)
Entrada gratuita